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O tapete de Isabel

 

 

      Isabel é minha vizinha. Não vizinha de muro, mas de proximidade. Agora ela ficou mais vizinha ainda. De minha rua, para ir até a nossa rua, eu passo pela rua de  Isabel. Parece meio complicado mas não é. A minha rua, é claro é a rua onde moro. A nossa rua é a rua onde trabalho para o bem comum e onde tenho o meu negócio de fabricar pães. É também a rua onde fica o escritório do marido de Isabel. O marido de Isabel é advogado. Compraram a casa que foi nossa mas também não gostaram de viver lá e a casa virou escritório. Porque eles não gostaram de viver na casa eu não sei. Eu sei porque nós não gostamos: por causa do pó. O negro pó de asfalto que tudo encarde.Eles, não deve ter sido por causa do pó. Isabel adora  limpar, está sempre com uma vassoura na mão.Teria sido a cabo eleitoral perfeita para Jânio Quadros. Isabel está sempre por perto.Ora na Padaria, ora na Livraria, ora na Casa da Cultura.No meu triângulo das Bermudas, onde me perco todos os dias. O Triângulo da Rua Santana.  Na Livraria, conversa fiado. Na Padaria pede papel de pão pra fazer o seu cigarro. Ela fuma cigarro de papel...de pão. Enrolado na hora. Na Casa da Cultura, ameaça tirar as plaquetas dos móveis patrimoniados e levar para casa.Os móveis, não as plaquetas. Ela adora me ameaçar, mas sabe que eu não levo a sério. Pois agora Isabel está no meu caminho. Alugou uma casa velha por onde eu passo todos os dias indo de uma   rua para outra.Montou ali o seu negócio de arranjos para casamento. Flores, candelabros, móveis, tapetes, essa parafernália toda. Antes de levar o seu patrimônio para lá, ela limpou a casa. Passou um longo tempo limpando e eu perguntando: quando vem para cá, Isabel? Quando estiver limpo, ela dizia.  Ela não só manda limpar, que ela pode fazer isso . Ela limpa. Todos os dias tem alguém ali limpando alguma coisa. Ela se dá muito bem com a vizinha de frente que também gosta de limpar.Elas acham que não só é obrigação limpar o lado de dentro como o lado de fora.    Ela não está nem aí para as ameaças de falta de água no Planeta. Ela limpa tudo que vê pela frente. Paredes, calçadas, rua. Há alguns dias atrás eu presenciei uma cena linda. Ela colocou uma lata de tinta, que usara para pintar qualquer coisa, na rua. Não sei pra que, acho que para garantir um lugar para alguém estacionar. Não era uma lata vazia, era uma lata cheia de tinta branca. Bem, tem gente que não respeita nada. Um carro passou por ali e com tanto lugar para passar, passou em cima da lata.. Espalhou tinta pela rua toda, tinta a óleo.Quando viu o estrago, desapareceu, como faz todo atropelador de lata. E lá estava ela de esfregão na mão, junto com a vizinha de frente, limpando a rua. Esfregando e esfregando.Jogando água. Portas e janelas, a vizinhança parou para ver mas ninguém foi ajudar. E eu também. Parei  e fiquei olhando e perguntando e as duas esfregando. Isabel é surpreendente. Está sempre aprontando alguma. Hoje por exemplo, assim que virei a esquina, estava ele lá: o tapete. Não era bem um tapete,um assim, comunzinho, mas uma passarela, de um azul da cor que está na moda, e que tem um nome que não lembro, estendido na calçada de frente . A calçada do lado dela é bem esquisita e então ela usou a da frente. Isabel não estava lá, sua casa fechada, era ainda a hora do almoço. Mas eu não tive dúvida. O tapete era dela. Tapete que, colocado em Igrejas, se transforma em caminho para as noivas até ao altar,  ali estendido, como se a rua inteira fosse um Templo. E as pessoas, ah! As pessoas...Fiquei ali por um tempo olhando. Nenhuma, mas absolutamente nenhuma , passou sobre o tapete. Mal virava esquina, o espanto. A dúvida. Todas desciam para a rua para não sujar o tapete, eu penso. Ninguém questionou o fato do tapete estar atrapalhando a passagem.  Até a dona da casa em frente se absteve de usar o tapete Até eu . Só que eu voltei. Voltei sobre os meus passos, e subi na calçada com o tapete estendido e como uma rainha fui trabalhar.Mas tirei os sapatos.Porque eu sabia que o tapete estava ali para ser usado. E eu  ri. Ri com o riso solto e me espantei com o cristal saindo de minha garganta. Isabel é assim. Sempre me surpreende e benditas sejam todas as pessoas capazes de surpreender pelo inusitado. Elas fazem o dia de qualquer mais feliz.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Maria Olimpia Alves de Melo
Enviado por Maria Olimpia Alves de Melo em 18/10/2007
Reeditado em 19/10/2007
Código do texto: T700209
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Maria Olimpia Alves de Melo
Lavras - Minas Gerais - Brasil
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