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Muito Prazer

Há exatos 37 anos anos, eles se conheceram. Marta lembra como se fosse hoje, aquele dia em que, distraída, tropeçou nos pés de Miguel. Ela pediu desculpas, recolheu suas coisas no chão e seguiu seu caminho. Mas ele, encantado com a beleza da moça, resolveu segui-la.

O começo do romance foi difícil. Apesar do suposto amor à primeira vista, eles mal se conheciam. Um não conhecia os gostos do outro, e não eram raras as vezes em que Miguel chamava Marta de Marcia, nome de uma antiga namorada.

Mas aos poucos, eles foram se conhecendo. Ela sabia qual o prato preferido dele, sabia que não podia atrapalhar durante os jogos do seu time e também que ele tinha um humor terrível pela manhã. Ele descobriu que demorar para se arrumar fazia parte da personalidade de Marta e começou a marcar seus programas 30 minutos mais tarde. Descobriu também que ela adorava tomar uma cerveja, mas só uma, pois a bebida fermentada fazia mal para sua gastrite e se acostumou com isso, ensinando-a a tomar whisky. Depois de 9 anos juntos, a sintônia deles era perfeita. Ela sabia no que ele pensava, ele entendia qualquer olhar que ela desse.

Certa noite, depois do trabalho, Miguel chegou em casa e Marta o aguardava com uma grande notícia: ela estava grávida. O casal saiu para comemorar e curtiram toda a gravidez juntos. Foram 9 meses inesquecíveis. Quando o bebê nasceu, porém, a vida deles mudou. Eles começaram a doar todo o tempo livre para o filho.

Quando veio uma menina, 2 anos depois, a coisa só piorou. Já não importava mais se Miguel gostava de frango ou carne, Marta só fazia pratos que as crianças gostassem. Também não importava se Marta levava 30 ou 40 minutos para se arrumar. Ela simplesmente não tinha mais tempo para isso. Seus horários mudaram. Ele acordava cedo para trabalhar, ela um pouco mais tarde, para preparar o almoço dos filhos. Almoçar em casa, por sinal, era uma coisa que Miguel não fazia mais. Não tinha tempo para isso. O casal só se encontrava a noite, os dois esgotados de mais um dia de trabalho. E no fim de semana, ainda tinham que levar as crianças para cima e para baixo.

Depois de tanto tempo, claro, eles já estavam acostumados com essa vida. E quando finalmente os filhos sairam de casa (a menina por último, para casar), Marta e Miguel viram-se sozinhos novamente.

Mas depois de 28 anos fazendo todas as vontades dos filhos, e deixando as suas de lado, aquele Miguel e aquela Marta que se conheceram depois de um tropeção, não existiam mais.

- Quem é você?

- Eu é que pergunto.

- Ei, como você entrou na minha cozinha?

- Mas essa cozinha é minha.

- Eu vou chamar a polícia.

- Mas eu moro aqui. Sempre morei.

- Além de roubar o meu jornal, você ainda tem a cara de pau de mentir assim?

- O jornal é meu. Eu que assinei. Meu nome tá aqui na etiqueta, ó?

- Falsificação é crime, sabia? E dá cadeia.

- Você é louca….como entra na minha casa assim, me acusando, falando que vai chamar a polícia.

- Eu tô avisando, hein….vou chamar a polícia!

- Calma, também não precisa disso…eu vou embora.

- É bom mesmo!

- Mas levo o jornal comigo.

- Tá bom, eu não ia ler mesmo.

- A senhora é muito simpática.

- Obrigada…

- Qual a sua graça?

- Marta e o senhor?

- Miguel.

- Muito prazer.

- O prazer foi meu.

- Desculpa qualquer coisa, viu.

- Desculpa eu….estava nervosa.

- Bom, vou indo…estou atrasado pro trabaho.

- Bom trabalho então….e quem sabe a gente não tropeça por aí.
Ricardo Polinesio
Enviado por Ricardo Polinesio em 18/10/2007
Código do texto: T700227

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Sobre o autor
Ricardo Polinesio
São Paulo - São Paulo - Brasil, 37 anos
68 textos (5640 leituras)
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Ricardo Polinesio