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POR UM FIO DE CABELO BRANCO

Aos quarenta e seis anos de idade, estou festejando a chegada de um fio de cabelo branco. Ainda não tinha um, e as pessoas me cobram constantemente, incomodadas com a idéia de que um homem na minha idade carregue esse traço de preservação. Como se não bastasse, nem mesmo a calvície veio me socorrer; o que amenizaria esta imagem de lobo metido a garotão, por não aceitar os efeitos do tempo.
Sinto-me constrangido, quando percebo parecer que tinjo os cabelos de preto. Nunca o fiz, mas me perguntam sempre se é meu caso. Aborrece-me a idéia dos comentários silenciosos e as possíveis indagações sobre por que não faço logo uma cirurgia plástica. Isto quer dizer que não pareço ter menos idade. Para ser verdadeiro, até pareço ter mais. Só os cabelos foram preservados até agora, contrastando com um rosto que mais parece uma teia. Rabiscado impiedosamente pelo tempo.
Voltemos ao fio de cabelo. Ele surge como um pronto-socorro à minha inquietação de homem tímido demais para responder a certas perguntas feitas e não feitas, sobre a negrura da cabeleira farta... Com o risco até de acharem que uso uma peruca, o que é mais grave do que um homem tingir os cabelos... Pelo menos na opinião de um matuto como eu, que faz questão de acompanhar a própria idade, e não aderiu à idéia de juventude psíquica ou espiritual. Quando for mesmo velho, quero ser por dentro e por fora, sem levar na testa o epitáfio – epitáfio mesmo – MELHOR IDADE.
O cabelo branco me deu uma certa dignidade. Posso dizer, finalmente, o velho chavão “respeite meus cabelos brancos...” Está bem; no plural ainda não, pois é um só, mas dizer “respeite meu cabelo branco” já faz bem a minha auto-estima. Na verdade, estou até ensaiando uma forma bem solene de fazer isso, para que esse respeito, ao ser exigido, seja realmente respeito e não o deboche de quem está sério por fora, mas retorcendo as tripas de tanto rir por dentro, de minha pretensão.
Mas o que me amedronta mesmo, nessa história toda, é uma possível mudança de postura quando minha cabeça mais parecer um sorve de coco do que propriamente uma cabeça. Ficarei ridículo, e sem perceber – pois toda pessoa ridícula não percebe que é –, se de uma hora para outra resolver tingir meus cabelos de acaju, entrando na onda pegajosa da tal de MELHOR IDADE.

Demétrio Sena
Enviado por Demétrio Sena em 20/10/2007
Código do texto: T702144
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Demétrio Sena
Magé - Rio de Janeiro - Brasil, 56 anos
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Demétrio Sena