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Foto 3x4

                       Foto 3x4

                                                                     Por Elias Ellan

Há tempos aposentei-me e me mudei de Curitiba para uma pequena cidade do litoral paranaense. Vim em busca de sossego, pois, aqui temos dez meses tranqüilos e dois que são um verdadeiro inferno, mas a proporção me agrada.
Dias atrás necessitei de algumas fotos 3x4 uma vez que precisava refazer alguns documentos . Revirei as gavetas de casa e, não encontrando nenhuma, fui ao centro da vila tomar as devidas providências. Como eu não conhecia nenhum estúdio fotográfico por aqui, dirigi-me a uma loginha da Kodak, daquelas que tiram fotos e revelam na hora. Estava vestido com o traje costumeiro, ou seja, chinelos, bermuda e camiseta branca. Mal coloquei os pés na loja, fui recebido com um: Belê? Isso por aqui significa: e aí, tudo bem? Tudo beleza?
Tudo bem, falei. Preciso de seis fotografias 3x4. O problema, disse o rapaz, é que o fundo (a parte que fica atrás do fotografado) é branco e, assim sendo, as fotos não vão ficar muito boas porque a sua camiseta também é branca. Então está bom, vou até em casa e troco de camiseta. Não será preciso, disse ele, o senhor não gostaria de tirar as fotos de paletó e gravata? Acontece falei, que já há uns dez anos que eu não uso nem possuo mais paletós nem gravatas. Isso não é problema, retrucou ele prontamente, daremos um jeito.
Assim falando, colocou-me sentado em frente à máquina, apanhou o que me pareceu ser um monte de trapos velhos e começou a sacudi-los como quem sacode uma toalha de mesa para retirar farelinhos de pão.  Quando ele ameaçou colocar aquilo no meu peito, impedi-o e dei uma olhada para ver que trapos eram aqueles. Quando, após alguns segundos, meu cérebro percebeu do que se tratava, encarei-o com uma expressão entre pasmo e divertido.
Os tais panos eram, na verdade, a parte da frente de um surradíssimo paletó preto, onde estava costurada a parte da frente de uma velha camisa branca, onde estava costurada a parte da frente de um amarfanhado colarinho, onde estava costurado um pedaço de gravata preta. O cara jogou aquilo tudo pra cima de mim, deu uma enjambrada, olhou bem e sentenciou: tá jóia!
Eu já não sabia se ficava brabo ou se dava risada. Enfim, concentrei-me e ele mandou ver. Tirou quatro fotos (pro senhor escolher a melhor, sacumé?).
E assim estou eu nas fotos, com aparência de quem vai, ou foi a um enterro, mas, que estranho, pela primeira vez na vida olhei para uma foto minha e me achei tão velho... Parece que existem dois Elias; o que está dentro de mim e o que está fora, o da foto.
Elias Ellan
Enviado por Elias Ellan em 20/10/2007
Código do texto: T702213

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Sobre o autor
Elias Ellan
Matinhos - Paraná - Brasil, 69 anos
12 textos (670 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 20/10/17 05:00)