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O poder de uma palavra

          Um belo dia, eu acordei e me vi assim, sozinha... Muitos daqueles a quem amei e que me amaram se foram de um jeito ou de outro, para uma nova vida e a minha ficou aqui...
          Todo o trabalho duro, e como foi duro, já foi feito... Os filhos agora adultos têm seus trabalhos, seus amores, suas vidas fervilhantes em mil atividades, e fico feliz em vê-los assim, vivendo!
          Eu, por problemas de saúde, volto a morar em São Paulo e preciso encontrar uma nova rotina, mais amena e tranqüila, mais adequada. E haja criatividade para isso... Agora tenho muito tempo para fazer todas as coisas que gosto, ler e reler todos os livros, assistir todos os filmes, ouvir todas as musicas, escrever todos os poemas...
          Mas de que adianta tudo isso, quando não se tem com quem dividir esses doces prazeres? O tempo sobra, a imaginação também, e a saudade só aumenta...
          A noite parece crescer e o sono não chega nunca... Chego até a ouvir a sua voz meu amor, me dizendo “Gordinha, apaga logo essa luz, que eu quero dormir...” isso, no melhor capítulo do livro, que nesse momento, passo a relatar e que você escuta com a maior paciência, até finalmente me envolver no seu abraço amoroso, que me faz deixar o livro esquecido sobre a mesinha de cabeceira... Nostalgia, um maremoto de lembranças que me afogam em saudade...
          Vou para o computador, essa maquina mágica e maravilhosa que parece interagir com solitários, como eu... Internet, buscas, sites maravilhosos, sobre os assuntos mais interessantes onde me perco por horas a fio, me esquecendo de tudo... Os e-mails trocados com os amigos, agora distantes, trazem mensagens lindas, piadinhas, informações diversas sobre vários assuntos, e são tantos, que ocupam uma boa parte desse meu tempo grande...
          Através do meu filhote, que mora do outro lado do mundo, eu descubro o “Orkut”. Fico impressionada com os números, “você está conectado a trocentos milhões de pessoas...” Uau... Isso é fantástico! É um oceano imenso de possibilidades para se conhecer pessoas com os mesmos interesses, a possibilidade de “conversar” com gente de verdade! Mergulho nesse mundo e descubro velhos amigos de infância, entro em contato com muitos parentes, que não vejo há anos, espalhados por esse Brasil e pelo mundo afora, sinto-me feliz. Tento conhecer novas pessoas, fazer novos amigos, mas de repente, me surpreendo com o medo dos que ali estão com seus perfis montados, e às vezes tão contraditórios. O contato inicial e pessoal é rapidamente substituído pela troca de mensagens impessoais e coletivas, sendo que a maioria delas se resume a frases e pequenos textos de auto-ajuda, que normalmente se aplicam muito mais a quem envia do que propriamente a quem recebe. Dentro deste oceano, encontro algumas gotas homeopáticas de gente de verdade!
          O que aconteceu com o ser humano?
          Porque tanto medo, tanto faz-de-conta...?
          Percebo tristemente, que estar dentro dessa rede, é quase o mesmo que andar no trânsito desta grande cidade, onde as pessoas se fecham e se trancam na suposta segurança de seus carros, sem olhar para os lados, com pavor de serem abordados por alguém... muito perigoso... Somos apenas mais um ninguém, no meio de uma multidão de seres, isolados no absurdo medo de uns dos outros... Coisas da vida moderna!
          Poucas pessoas se mostram acessíveis e com estas procuro um jeito de me aproximar de uma forma mais amiga e intensa, abro meu coração, conto passagens da minha vida, brinco muito, esperando que se abram também para um relacionamento mais humano e caloroso, na troca de afetividade. Sou pródiga em carinhos, em afeto, em atenção, distribuo generosamente o que procuro, mas não encontro o mesmo calor, não há retorno ou interpretam o gesto de forma totalmente equivocada...
          Descubro apenas que o ser humano está com medo, até do amor, na expressão de sua essência mais pura, e o quanto se sente intimidado e acuado diante do exercício e do poder dessa palavra que deveria apenas, aproximar as pessoas.
          Lembro-me da frase bíblica que se refere a amar aos outros como a si mesmo e nela, talvez esteja toda a explicação.
          Podemos ler nos perfis, ou comunidades, o quanto todos procuram desesperadamente amor, mas que amor? E como dar, do que não se sabe ter nem por si mesmo? Acho que algumas pessoas, já não sabem mais o que é amar... Fico assustada com o numero crescente de perfis, principalmente dos mais “maduros”, que utilizam fotos que não são suas, que inventam personagens os mais diversos, e como crianças travessas, vivem e procuram apenas despertar no outro, um mundo de ilusão e fantasias... Pessoas que não sabem ou não querem ser elas mesmas e me questiono, por quê? Seria falta de amor próprio, carência, ou pura maldade? Será que querem testar seus limites ou seu poder de sedução e influência sobre os outros? O que pode acrescentar de bom em suas vidas, estar em um site chamado de relacionamento se estão lá apenas criando uma falsa realidade, colecionando números dos chamados amigos, se enganam e são enganados, com uma absoluta falta de afetividade real... Entristece-me constatar que essas pessoas não sabem utilizar positivamente este meio de comunicação tão maravilhosamente moderno, perdem-se totalmente em sua irrealidade e ficam presos nessa malha do chamado mundo virtual...
          Mas se não posso mudar o mundo, porque não entrar no jogo?... “Em Roma, aja como os Romanos...” Por enquanto, vou tentar aprender a brincar e me divertir neste meio de comunicação para passar o tempo, assim, dessa forma bem impessoal do mundo virtual!
          E que estranho mundo este!...
          Mas isso não significa que desisti, ou que deixarei de ser eu mesma.
          Eu sou real, sempre serei e a minha busca continua...
          Acredito na possibilidade de conhecer pessoas de verdade, que não têm medo de se mostrar e se doar. Sei que uma hora dessas nos encontraremos e nos tornaremos grandes amigos, reais, verdadeiros, ainda que apenas virtualmente... ou não...
          Bem, mas posso dizer que sou uma pessoa de muita sorte, afinal, entre esses trocentos milhões de usuários, eu até já consegui fazer mais dois ou três bons amigos!
          Ainda há esperança!

Helena Morais
Enviado por Helena Morais em 20/10/2007
Reeditado em 22/03/2010
Código do texto: T702690

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Sobre a autora
Helena Morais
São Paulo - São Paulo - Brasil, 61 anos
85 textos (7497 leituras)
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