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TE ADORO TEODORA



             Bem pouco eu sei da vida de Teodora. Nem mesmo o seu nome completo o tenho decorado. Essa pretinha retinta, de olhar azul e miudinho, cabelos negros e ondulados, sofrera desde a mais tenra idade. Fora abandonada pelos pais, mas contou com o acolhimento de vovô Pedro, que a criou como pode. Os anos se passaram e ela soube como boa filha, retribuir a caridade do velho Pedro, cuidando dele até que se findasse os seus dias (dele).. Teve muitos filhos e de um deles ouvi no enterro: ela lutou demais para criar a gente.
             Quando eu saí de casa, naquela tarde triste de setembro, (09-09-04) pensei que o céu haveria de chorar a sua morte. O calor estava de rachar e nenhum sinal de nuvem havia. Fui a igreja, lá já estavam papai e mamãe, juntei-me a eles. Celebrava-se uma missa de corpo presente. Fui ver de perto a minha amiga, ela que tanto nos queria bem, a nós todos. Só eu, dos quatro, estava ali, os outros gostariam de ter estado também para se despedir de nossa Teodora. Antes de ver seu rosto, as lágrimas já me escorriam pela face e a vontade que eu tinha era de destruir o meu cérebro, a minha débil memória. Buscava uma imagem, uma palavra da boca de Teodora, mas nada, estava vazio, sentia-me um desgraçado por não lembrar de nada. A preta Teodora era de poucas falas. Chegava sutil, delicada, até com vergonha, tinha quase sempre o olhar baixo e já ia servindo a gente com alguma coisa. Nunca ouvi dela uma reclamação, não elevava a voz e só fazia o bem. Sei que não há são Pedro, o seu São Pedro fora Vovô, e se espíritos ou céu existissem, meu vô tomaria as chaves do xará e diria, como o poeta: entra preta, aqui não precisas pedir licença não. O céu é teu e ainda assim continuamos teus devedores.
               Foi meu pai, que ao meu lado empurrava o carrinho com o caixão, quem disse: está pingando. Era o céu chorando a morte de Teodora, eu estava certo, ele tinha mesmo que chorar. Em enterro de gente boa tem que chover, ainda que seja de fininho.
              Entramos no cemitério. Didi rapidamente saiu. O caixão foi posto em cima da montanha de barro. Distribuí com crianças as rosas colhidas em algum canteiro ou mesmo no mato bravio, e que alguém que não conhecia, me passara. Foi quando meu pai falou para uma das crianças que circundavam o caixão: tu sai daí menino, se não ao invés de um, ficam dois. O menino lá permaneceu teimoso e curioso por entender o que se passava. As rosas cobriam Teodora, algum barro já fora posto em cima da morta, quando de repente, um menino de uns 5 anos escorregou no barro e de ponta foi parar nos braços de Teodora, que amorteceu-lhe a queda. O povo nem se mexeu, nem mesmo o pai do menino, Rivaldo, que estava lá. A criança chorava, foi quando ato contínuo, saltei e firmando-me em cada uma das bordas da cova suspendi o menino pelas mãos. Ele ainda chorou um bocado limpando-se do barro, mas sem a sensação de asco que seria comum aos adultos. Estranho acontecimento, é como se mesmo morta não lhe faltasse a vontade de servir, de acolher carinhosamente aquela criança.
             Como poetizou Drummond ou Bandeira, nós Te adoramos do verbo Teadorar, e sentiremos saudades, quanto a mim, estas me acompanharão até o último dia de minha vida.
Marcos Cavalcanti
Enviado por Marcos Cavalcanti em 20/10/2007
Código do texto: T702975

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Sobre o autor
Marcos Cavalcanti
Santa Cruz - Rio Grande do Norte - Brasil, 44 anos
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Marcos Cavalcanti