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PRENDAM AS BALAS... SOLTEM OS HOMENS!

Bala Perdida e Bala de Borracha. Duas agentes, a serviço do bem e do mal. Obras primas do acaso que eram, elas poderiam ser chamadas de primas-irmã. Parentes significativamente distantes de suas homônimas das prateleiras dos supermercados – viveram – cada uma – o seu tipo de inferno astral.

Bala perdida, a mais travessa, era meio que totalmente inconseqüente. Gostava de ricochetear pelas esquinas – lisa, leve e louca – sem saber ao certo, o endereço, nem o seu destino final. Bala de Borracha, mais contida e recatada, fora desenvolvida para ser do bem. Criada para estar ao lado da lei. Por isso, trazia em seu glorioso histórico de existência, a marca do reconhecimento popular.

Um sábio, porém – também popular – tirando conclusões da morte de Cristo, disse um dia: “A mesma boca que grita: ‘Hosana ao que vem nas alturas’... Também gritará: ‘Crucifica!!!... Crucifica!!!”. Pois foi assim, que bala de borracha passou de heroína a vilã, num abrir e piscar de olhos. Logo ela, tão amistosa e pacata, contida, recatada, treinada para ser do bem...

Seu nome, dantes ovacionado pela plebe, tomou conta das páginas dos jornais com linchamentosos apelos à sua desdita. Ela, no cumprimento do dever, ainda que inteiramente sem querer, acabou matando um homem. Um soldado, amigo seu – companheiro de farda – deveria manter-se a certa distancia (do alvo) para arremessá-la.

Ele descumpriu o regulamento e aí, deu no que deu. Bocas, mais conscientes, disseram que a pobre coitada não teve mesmo culpa alguma. Que tudo não passou de um mal entendido e que, um dia, ainda provariam a sua inocência.

Foi quando acolhida ao xadrez para fazer o exame de balística, que “BB” encontrou-se pela primeira vez com sua transloucada prima. Coincidentemente, ela também se encontrava detida, pelo mesmo delito. Seus agentes e propulsores, ironicamente, não se encontravam detidos.  Respondiam em liberdade, por: “homicídio culposo” (crime que é, mas não é... Você sabe!): matar de forma não intencional, crime não premeditado, essas coisas... Ironias de um código penal arcaico e ultrapassado.

“BP” sentiu verdadeira ojeriza por “BB”. Ela, por sua vez, ignorou completamente a companheira. Depois, passada a frieza inicial e desfeita a má impressão, ambas puseram-se a conversar sobre o inoportuno incidente:

– Presa, depois de tantos serviços prestados!... – Exclamou Bala de Borracha, não contendo a decepção.
– Lugar errado, hora errada! – Lamentou Bala Perdida, – O que aquele mentecapto estava fazendo, as duas da matina, bem no meio de um tiroteio?”– Praguejou.
– Pior fui eu, só queria dar um sustinho, e agora... Defendeu-se “BB”.
– Eu também! Ironizou “BP”.
– Você não, bem!... – Cortou a outra, – Eu tenho ouvido a teu respeito, que matas sem ter conceito, dó ou piedade. Fazes bem, em estar aqui! Bem mereces teu castigo!
– Pera lá mana... Qual é a tua, hem? – Esbravejou Bala Perdida, – Aí, pega leve, falô?! Se eu fui, alguém me acionou! Se não existe efeito sem causa, onde está quem  me atirou?

Num país onde matar um tatu é crime inafiançável. E, tirar a vida de um ser humano (fugindo do flagrante) responde-se em liberdade...
Vá entender! Melhor aceitar a sina e dizer:

                             “PRENDAM AS BALAS!
                             SOLTEM OS HOMENS!”
Arlindo Theodoro
Enviado por Arlindo Theodoro em 22/10/2007
Código do texto: T705621

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Sobre o autor
Arlindo Theodoro
Vila Velha - Espírito Santo - Brasil, 53 anos
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Arlindo Theodoro