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Desabafo para amigos

Estou enviando esse e-mail que não é uma corrente, mas com interesse que ele seja repassado depois que vocês reflitam e avaliem se deve ou não repassar. Estou fazendo um desabafo do que me aconteceu ontem e me deixou muito mal, quero dividir com vocês minha indignação, minha impotência e a sensação de não saber quais são nossos valores verdadeiros.
             Ontem dia 1 de setembro, sábado às nove horas da manhã eu e Jairo tínhamos agendado uma oficina na Favela Sururu do Capote na lagoa Mundau, o objetivo dessa oficina era organizar e produzir material para a comunidade participar do Grito dos Excluído no dia 7 de setembro, que seria o momento para um ato público de repúdio a atitude do prefeito que alega não ter recurso para cumprir a sentença da ação pública que esta respondendo pela violação dos direitos daquela comunidade.
              Quando íamos iniciar os trabalhos fomos chamados por nossa companheira Vânia, que é uma das lideranças da comunidade, ela estava do outro lado da pista e nos contou a situação. Uma adolescente, Daniana da Silva Nascimento de 15 anos, que morava na comunidade e se encontrava desaparecida, estava deitada na calçada desde sexta feira desmaiada, com uma diarréia, que era uma mistura de fezes com sangue – esse é um sintoma do consumo de “noia” a droga que esta matando muito meninos de rua, ela vai destruindo os orgões internos - já haviam dado banho mas ela não reagia. Uma situação dessa a primeira coisa que se faz?
              Você acertou se falou ligar para a SAMU, mas também já tinham feito e nada, mesmo assim insistimos e ligamos, Jairo ligou falou com o primeiro atendente, que passou para o segundo até falar com o médico, e ter a resposta que não havia nenhuma ambulância para socorrer, e um detalhe durante o dia todo, sabemos da greve da área de saúde, mas sabemos que elas estão circulando e prestando atendimento em urgência. Partimos para o plano B, no meio da pista que atravessamos tinha um camburão da Policia Militar com quatro policias, lógico que fomos até eles nos identificamos e colocamos a situação e cobramos uma solução, ligaram para o batalhão que proibiu a saída da patrulha do local para prestar socorro a adolescente, ligaram para o corpo de bombeiro que também alegou não ter ambulância também. A única alternativa foi o camburão levar, mas para isso acontecer tivemos que informa nosso nome, endereço, RG, celular, nome da entidade que participamos, ate ai tudo bem.
               Juntos com os policias voltamos ao local que se encontrava adolescente, nesse momento ela havia despertado, e conversamos com ela para leva-la ao hospital. Até aquele momento só tinha visto ela enrolada no lenço, que foi trocado por esta sujo, só tinha couro e osso, a situação era deplorável, ela mal se agüentava em pé e levou um susto quando viu o camburão, mas disse que ela estava indo para o hospital, como ela não conseguiu ir até a viatura eu e outra mulher colocamos nos braços e a levamos. Nesse exato momento não sei bem onde estavam os policiais porque não apareceu um homem para ajudar.
                Fomos para o pronto socorro depois de um bom tempo de espera ela foi atendida, fiquei do lado de fora, e junto com Daniana ficou a Vânia e a Irmã Deusa que dedica sua vida a ajudar jovens, ela foi encaminhada para o Hospital Dona Constancia de Doenças Infecciosa. Achei interessante quando fui mostrar o encaminhamento para uma atendente que vendo aquela situação me informou que era ali bem perto, tipo “vá  a pé”, pedi para falar com assistente social que deu uma solução, ela foi em uma ambulância.
                Chegada no hospital, foi feito a ficha e ficamos aguardando o atendimento, só que com toda essa demora, a situação piorava cada vez mais, o lençol que ela estava enrolada já estava sujo, o cheiro insuportável, que o médico disse que “não”  iria atende naquele estado. Será que só esse abençoado viu aquela situação? E quem você acha que deu banho na Damiana? Quem disse enfermeira errou, foi a irmã Deusa, que realmente é uma deusa de bondade, de exemplo, de coragem e de muito amor. Finalmente foi atendida colocaram no soro, mas o médico avisou logo ela não iria ficar interna só iria hidratar, isso já tinha passado de duas horas da tarde. E acompanhando o caso de Damiana, se encontrava uma comitiva Vânia, Irmã Deusa, Jairo, Beti e Audenir. E isso assusta um pouco, principalmente quando fomos conversa com assistente social, que não estava, mas logo veio a enfermeira, que deixou claro que não podíamos sair de lá que ela não podia ficar internada. Na consulta quem estava com Damiana foi a Irmã Deusa, e começamos a questionar, algumas coisas, na pré consulta ela estava com febre, se tem febre tem infecção? Foi feito exame, se o resultado não sai como vai dar alta? Como é menor o hospital não pode liberar sem um responsável - esse era o medo deles da gente ir embora. Fui conversa com o médico como de costume e sabendo como algumas coisa funcionam de identifiquei e falei do trabalho que fazemos na favela Sururu do Capote, e foi muito atencioso o Doutor Gilberto, que podíamos ir tranqüilo para casa, que já tinham requisitado vários exames, inclusive de HIV, que ela estava no soro, e só sairia dali reabilitada, me deu o número direto do ambulatório, e quando ligasse pedisse para falar com, o médico baixinho de olhos azuis como ele se descreveu, me despedi de Damiana e vim p minha casa. Quando cheguei já era três horas só deu tempo para um banho e sair p o centro espírita que freqüento com minha filha.
               Uma seis hora liguei para saber noticia de Damiana, uma menina de rua que já tem duas filhas Natalice e Ana Calorina, que são gêmeas de um ano e seis meses, que são criada pela avó, que é viciada, não porque ela quer e sim por todo o sistema que vivemos. Disseram-me que ela foi embora, que estava muito agoniada que tinha o que fazer, até arrumaram roupa para ela ir para o seu compromisso.
              Já passei por muitas situações, já presenciei muita coisa, mais essa em especial me deixo mal. Tenho filhas e ninguém esta livre que isso aconteça com uma pessoa nossa. Que ser Humano é esse Dr. Gilberto? que coloca uma menina - que fizemos o possível para tirar da rua que já havia até pedido para ser internada para se livrar das drogas - que conversou comigo com tanta atenção, em questão de 3 horas colocou na rua uma menina com febre, com diarréia colocando sangue, com quinze anos pesando 30 quilos na rua de novo, será que esse Doutor Gilberto tem filhos? Será que lembra do juramento que ele fez? Será que ele sabe que quando morremos todos voltamos ao pó?
                Eu já sabia quem era Damiana, porque Vânia já havia me contado a historia dela, e quando via sua fisionomia era conhecida, o primeiro contato foi triste, uma situação de ausência de tudo, e seu olhar era de “me socorra”, depois que tomou o banho, tomou água, comeu, seu aspecto melhorou, e conversamos rimos da presepada dela, um sorriso lindo de criança, com atenção que demos o quadro mudou. Era um fio de esperança para mudar uma realidade, era a chance de recuperar um ser humano, e dá um pouco de dignidade, uma oportunidade de mudar o destino. E foi tudo em vão, porque um Dr. Gilberto, o baixinho de olhos azuis, acha que deve dar a chance para uma pessoa que queira viver, e que seja um caso mais grave, e não uma menina de rua. Será que uma menina de 15 anos tem condições de dizer se quer viver ou não? Eu parei de fumar, mais foi muito trabalhado na minha cabeça, e sou consciente do mal que me provoca e mesmo assim sofro com abstinência, tenho uma situação razoável, posso procurar ajudar, não é fácil, e é apenas cigarro.
                Damiana é só um exemplo como muitos meninos e meninas de rua que existem, as expectativas de vida deles é pouco, mais um detalhe eles se multiplicam muito rápido, enquanto criamos nossos filhos com amor, com educação, saúde e carinho, eles crescem como bichos. Da para imaginar com será o futuro de nossos filhos?
                Será que se Damiana tivesse uma casa, uma família, comida, escola, atenção e carinho, ela abri mão de tudo isso para cheira cola?
                Acho que deu para entender qual o futuro de Damiana, na próxima vez ela vai ter em seu caminho como disseram no hospital um anjo da rua para ajuda-la? E vai encontra mais uma vez um Dr. Gilberto na vida? Quem é o assassino de Damiana? Com certeza o Dr. Gilberto é um deles, como eu também sou por inocência de confiar em um homem e sair do hospital.
                Mudei algumas praticas na minha vida, e uma delas é não ficar remoendo alguma coisa que me fazem mal, troquei por pensar em coisas positivas e parti para ação, mas jamais ser omissa. E esse é o objetivo desse meu desabafo que ele circule até chegar ao coração do Dr. Gilberto e outro que tem o mesmo pensamento, para que isso não se repita, que mudemos nossa maneira de ver que esta na rua. Não viemos a terra em vão e todos nos temos nossa responsabilidade de transforma o mundo que vivemos,  pequenos atos podem fazer muita diferença amanhã.
                Como disse no inicio em relação a valores, não posso fazer nada e nem vou perde meu tempo atrás do Dr. Gilberto, prefiro dá atenção ao um menino de rua, esse sim vai me da prazer em me sentir um ser humano útil. Independente de cor, raça, classe social, sobrenome e etc, são filhos de Deus e devemos fazer ao próximo o que gostaria mos que fizemos por nos ou nosso filhos.
                Tem uma questões que não deixo de pensar. Aonde esta o Estatuto da criança e do adolescente? Será que todos conhecem? Será que esta sendo respeitado? Para aonde esta indo o recurso que esta sendo direcionado para trabalhar com eles? O que os órgãos responsáveis estão fazendo? E o que estamos fazendo?
                 Valeu atenção, e façam dessa mensagem o que acharem melhor na consciência de cada um. Que Deus abençoe a tod@s, que essa semana seja muito proveitosa, e peço a Ele uma atenção especial a Damiana e ao Dr. Gilberto.
Lana Li
Enviado por Lana Li em 23/10/2007
Código do texto: T706506
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Sobre a autora
Lana Li
Alagoas - Alagoas - Brasil, 39 anos
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