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DEPOIS DOS TEMPORAIS...

          Construímos a casa da fazenda, no ponto mais alto da propriedade. A vista do lugar é linda e repousante. Uma visão que se perde no horizonte, ampliando ao máximo, a sensação de paz e integração com a natureza. À noite então, fica ainda mais bonito, já que deste ponto é possível enxergar ao longe, as luzes de cinco cidades no entorno, brilhando como pequenos cordões de estrelas sobre o chão...
          Mudamo-nos para lá em julho de 1986 e como toda casa recém construída, em volta estava um deserto. Terra nua, nenhuma árvore, nem um arbusto sequer no terreno que tínhamos em volta da casa. A primeira providência foi fazer um belo gramado, para eliminar toda a poeira que vinha com o vento frio e seco do inverno. Serviço rápido, sem complicações, em poucos dias o gramado ficou pronto e lindo, com o auxílio de irrigação já que a época era de seca. Vida nova e as crianças ainda bem pequenas podiam brincar tranqüilamente livres! Eu trabalhava na administração da produção, enquanto meu marido passava a semana trabalhando em São Paulo. Ar puro, vida saudável, tudo de bom... E a partir de então, começou o meu aprendizado sobre a verdadeira convivência com a natureza.
          O primeiro temporal que vi se formar foi assustador. Era possível, através do ar denso e parado, pressentir a intensidade do mesmo. Os animais estavam agitados naquele final de tarde. Eu observava as grossas nuvens se agrupando a uma longa distância, movendo-se rapidamente, tornando-se cada vez mais pesadas e escuras, uma visão tão fantástica que simplesmente, hipnotizava...
          Muitos relâmpagos cortando as nuvens, trovoadas assustadoras que aumentavam em intensidade quanto mais o temporal se aproximava. E o cheiro no ar... Um cheiro bom, doce e penetrante de terra molhada... E de repente, o vento, violento, incontrolável, devastador, chega varrendo, virando e revirando tudo que estava em seu caminho... Incluindo, a minha casa! Metade do telhado ficou descoberto, com as telhas sendo arremessadas longe e a chuva intensa, acompanhando aquele vendaval, entrava por toda parte... Os raios, agora pareciam cair todos sobre nós, em trovoadas ensurdecedoras. Energia elétrica cortada, só me restava naquele momento, pegar as amedrontadas crianças e ir dormir, acampados no único quarto que estava seco, nada mais podia ser feito naquele momento. Foi realmente assustador, mas ao mesmo tempo fascinante... A natureza se mostrando em toda a sua força, poder e paixão! E após essa passagem avassaladora, uma chuva mansa, constante por toda noite...
          A primavera havia finalmente chegado, para renovar a vida da terra! E eu não fazia idéia de quão diversificada era essa vida...
          Na manhã seguinte, com sol bonito, havia muito trabalho a ser feito no conserto de tantos estragos. Depois do temporal vem a bonança... Descobri que não era bem assim... Quando sai para verificar os estragos na casa, veio uma nova surpresa. Ela estava parecendo uma noiva, totalmente coberta por enormes teias de aranha, que vinham do alto do telhado até o chão! Eu, em um primeiro instante, fiquei estática diante do inusitado da cena, de certa forma, admirando aquele cenário, enquanto as crianças riam muito... Passei à furiosa... Aquilo parecia um pesadelo, um filme de terror...
          Com que direito, aqueles serezinhos repugnantes, invadiam o meu espaço tão sagrado? Deviam ser eliminados com urgência, o que foi rapidamente providenciado. No final daquele cansativo dia, nova chuva, dessa vez mais mansa e rápida, porém ao final dela, novas invasões! Agora, eram nuvens de “aleluias” que entravam por todas as frestas... E ao final de cada chuva, novas surpresas chegavam, diversificando a fauna em minha casa, como os besouros, grilos, lagartas de todos os tipos e tamanhos e muitas outras espécies de insetos, que logo foram seguidos pelos sapos, as cobras...
          Meu Deus, com tanto espaço em volta, porque todos queriam invadir assim o meu paraíso e acabar com meu sossego?
          Habituada a vida civilizadamente urbana de São Paulo, sem esses inconvenientes vizinhos, demorei a perceber o quanto era inútil lutar contra eles. Demorei a perceber quem eram os reais invasores ali, afinal... Eu, minha família e minha linda casa!
          Vi que a única coisa possível a ser feita, seria aprender a conviver com todos em harmonia, no ambiente deles, no espaço deles, dando-lhes enfim, o que eles precisavam e mereciam, para vivermos em paz... Abrigo!
          Plantei árvores, muitas árvores e arbustos e flores de todos os tipos. Cuidei delas dia a dia, adubando, regando, desbastando. Era preciso que crescessem rapidamente e sadias, pois teriam a função de quebra ventos, proteção, abrigo e alimento para todos os meus pequenos vizinhos.
          Hoje quando olho em volta e vejo as lindas e frondosas árvores, que protegem minha casa, dos ventos que nunca mais arrancaram as telhas, com sua sombra refrescando o ar e amenizando o forte calor dos dias de verão, com suas flores e seus pequenos frutos é como se estivesse olhando para mais um filho, adulto, crescido e independente. Cumprem majestosamente as suas funções e ainda mais, atraíram também os pássaros, muitas e muitas espécies, que ali fazem seus ninhos, e trazem ainda mais cor e alegria para o nosso espaço, nosso pequeno paraíso, que deixou de ser apenas meu...
          Sinto-me enternecida, com amor, alegria e paz nessa convivência iluminada e harmoniosa e penso no quanto eu aprendi, não apenas sobre a natureza em si e seu equilíbrio, mas um aprendizado de vida. Hoje, posso ver com outros olhos, todos que fazem parte da minha vida, cada qual, com suas lembranças, amores, paixões, diferenças, temporais... Outro dia, uma amiga reclamava sobre pessoas invasivas... Sugeri que repensasse a questão, afinal, aprendi que os limites nas relações são tênues, delicados, entretanto, espaços são abertos e definidos por nossas próprias ações, conseqüentemente gerando responsabilidades com o outro...
          A vida é maravilhosa, mas nunca é apenas nossa...

Helena Morais
Enviado por Helena Morais em 23/10/2007
Reeditado em 23/10/2007
Código do texto: T706722

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Sobre a autora
Helena Morais
São Paulo - São Paulo - Brasil, 61 anos
85 textos (7497 leituras)
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