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O DIA QUE TE OFENDI ( Veridico, a unica culpa que assumidamente carrego)

Não me recordo jamais de ter humilhado um ser humano,
não recordo de ter destratado um menor de condições do que eu...

Lembro de ter feito isso, apenas com uma negrinha que se chamava Romilda.

Ela ja estava lá quando eu cheguei...
Os primos e tios
haviam me contado que ela chegou no mesmo cavalo que o pai,
o homem teria cavalgado umas tres horas, e veio de casa trazendo tres de seus filhos
e ele ia deixando os filhos um a um nas fazendas da região
Quando chegou a casa de meu avô, só restava ela.Romilda.
O negro velho tropeiro de gado, tirou o chapéu e veio ter com meu avô
Atrás dele a negrinha, de olhos graúdos e ossuda
e devia ter uns 8 ou 9 anos de idade.
O Velho homem pedia para que meu avô tomasse conta dela, por uns tempos
que tinha muitos filhos para alimentar, e não tinha condições de mantê-los,
que estavam pasando fome, e que ele e a mulher que tinham 10 filhos e estava muito difícil de manter a família.
Meu avô olhava o homem com seus olhos profundos...e quanto mais o olhava, mais o homem argumentava e ia baixando o tom de sua voz e ia engasgando devagar.
Explicava como uma súplica
que a menina podia ajudar na lida da casa, casas grandes dizia ele...tem muita (lida)que a Romilda tinha muita serventia, era esperta e trabalhadeira e que comia pouco.
Que a ajuda era ate passar o inverno, quando ele ingressase novamente a tropear o gado
que ia ter mais dinheiro, e que depois ia juntar os filhos de novo.
Meu avô conehcia o homem, mas não lhe disse nada.
Pegou a negrinha pela mão e perguntou.
Você quer ficar aqui nesta casa? Tenho muitos animais, balanços no quintal, tenho tambem dois filhos que regulam com a tua idade, voce pode ficar amiga deles se quizer, brincar depois de voltar da escola, não é nescessario que trabalhe...mas terá que estender a sua cama quando levantar dela.
Dizem que ela nem respondeu, apenas trocou de lado...saiu do lado do pai, e foi para o lado do meu avô...
O negro velho pegou a estrada, e meu avô ainda mandou servir guarnições e colocar na
mala de garupa do cavalo dele.

Foi assim que me contaram, quando cheguei  para passar férias e me deparei com a tal negrinha ossuda, com olhos muito redondos e nariz achatado, ela não tinha cabelos engruvinhados,  lembrava mais ser decendente de aborígene do que  africana...

Deviamos ter a mesma idade, e junto de meus tios filhos do segundo casamento do meus avô regulavamos todos entre 8 a 12 anos.
Observei que ela estava usando umas roupas tricotadas e tambem , bordados típicos feitos pela mão de minha tia avó, muitos babados e pregas, e fui logo perguntando se minha tia havia lhe dado aquelas roupas...
A Romilda apenas me olhava do mesmo modo que eu a observava...
de cima a baixo, de baixo a cima...curiosa.
Meu tio que era da minha idade, cochichou no meu ouvido...

Ela não tinha roupas quando chegou, tinha duas mudas apenas...uma no corpo, uma no tanque, e não eram quentes disse-me ele.
Precisaram comprar algumas, e outras a tia logo sentou para tece-las, se não a Romilda ia morrer de frio neste inverno...
Minha tia que tinha 10 anos, reforçou em baixo tom de voz....Também não tinha sapatos, e eu dei alguns pares e tambem meias para ela...

Quando meu avô chegava da lida no campo em casa, costumava verificar se todas as crianças estavam limpas e devidamente penteadas, para o jantar..e fazia isso sempre parecer uma inspeção de quartel mas com muito bom humor...e brincadeiras

Lembro de ter ficado com ciúmes quando ele girou ela pelo ar...dizendo, mas a Negrinha tá muito cheirosa, de cabelo bem penteado...dentes bem branquinhos, por conta disso vai ganhar direito a duas sobremesesas...

Ele fazia o mesmo com todas as crianças, mas para mim...parecia que os elogios para a Romilda eram melhores.

Passávamos os dias brincando, e como estávamos rodeados pela natureza, só voltavamos para casa, na hora das refeições.
A tal Romilda era um sucesso, tinha idéias criativas...estava semrpe criando uma nova brincadeira,improvisava tudo e do nada,e todos queriam brincar... estava sempre apostando algo, quem chega  primeiro, quem pega aquilo...quem me encontra....subia numa árvore no mais alto galho numa velocidade, com tanta destreza que parecia ter algumas garras que não a deixavam cair e escalar tão rápido.
Eu queria brincar de outra coisa...e as outras criancas queriam brincar das coisas que Romilda inventava.
Eu tinha fama de muito boa cavaleira, mas Romilda...montava num cavalo sem cela igual a uma amazonas...Eu que tinha aprendindo a cavalgar aos 5 anos de idade, não me dava conta que provávelmente a negrinha tinha nascido no lombo de um cavalo...

Ela sabia o nome das árvores, dos bixos, dos passáros, de cada graveto que tinha no chão, e a popularidade dela era então maior que a minha...
Eu já não estava gostando daquilo, tinha de dividi-la entre meus tios e primos, e principalmente com meu avô..

Quando ela começava a dar nome as coisas, e contar coisas que eu nunca tinha ouvido, não podia contestar mas já estava achando que ela inventava tudo aquilo para ganhar a atenção e mais popularidade...

Numa tarde, resvalei de uma pedra e cai, não foi um tombo feio,  levantei sozinha e quando olhei para o alto a Romilda estava verde de tanto gargalhar, e as outras crianças também...e eu já estava coeçando a me chatear !
Comecei a me entediar com aquilo...passava as noites planejando um modo de fazer algo que a surpreende-se, ou então provar que ela estava errada em alguma coisa...
ou inventar uma coisa diferente.

Numa tarde, estavávamos um pouco distantes de casa, perto de umas bananeiras, arrancando as folhas e construindo uma espécie de cabana a modo muito improvisado tentando imitar Robson Cruzoé, quando comecou a ventar...o sol desapareceu e a nossa cabana começou a perder o ( telhado) De repente um trovão e a Romilda já subindo em direção a casa gritou.
— Vamos embora, vamos rápido...
E eu com as mãos na cintura parada no meio do princípio daquela tempestade, perguntei.
—Ta com medo de chuva, é? Tão valente, com medo de uma chuvinha...
e gritei para os outros...
Vamos ficar pessoal, é só chuva...daqui a pouco passa, vamos tomar banho de chuva, vai ser bom, deixa a Romilda ir,( me achando o máximo)  e as crianças ficaram divididas...entre debandar ou continuar a brincadeira.
Foi quando Romilda deu dois passos em nossa direção e disse:
—Não tenho medo de chuva, não...Tenho medo de raios, vamos logo...voces nao estão vendo que está relampejando??

—RELAMPEJANDO???disse eu (nunca tinha ouvido essa palavra) Não e Relampejando, agora não sabe falar também??? O certo é RELAMPIANDO...
Mal terminei a fraze e lá foi a Romilda explodir de gargalhar na minha cara...

—Relampiando??? Essa palavra não existe...nem parece que tu veio da cidade e não sabe...O certo é RELAMPEJANDO sim senhora...

A essa altura os primos e os tios pequenos, ja não sabiam de quem rir, e também não faziam idéia de quem estava certa.

Mas começamos uma discussão bem aí, era minha chance de vence-la...mas ela não estava nenhum pouco querendo engolir como certo o meu RELAMPIANDO!!!

Acabamos indo para casa, gritando uma para outra
.—RELAMPEJANDO...

—RELAMPIANDO
e quanto mais eu gritava, ela gritava mais alto em minha frente.
Perdi a paciência, puxei ela pelo braço e como o dedo em riste disse ...e com tanta maldade, que até hoje me pergunto de onde tirei aquilo...

—é RELAMPIANDO e acabou, você não vê? você é pobre, tinha só duas mudas de roupa quando chegou aqui.Como é que alguém que não tinha o que comer, e não tinha o que vestir, pode saber mais do que eu?

Ficou um silêncio...só o barulho da chuva, as outras crianças se entre olharam, e todos marchamos em direção da casa...Romilda na frente a passos largos, e nós atras.

Outros dias se passaram...e depois brincamos juntos todos outra vez, até as férias acabarem...não falamos mais no assunto, passou igual a chuva e os relâmpagos que também se foram...

Não lembro como me senti no outro dia...Acho que pensava que tinha toda a razão do mundo.
Mas quando voltei para a cidade, fui direto a prateleira  na estante onde  guardavam os livros, peguei um específico que meu pai chama até hoje de  (AMANSA BURRO) O famoso Auélio, pesado igual a chumbo e de capa já amarelada pelo tempo.
E descobri  igual ter levado uma bofetada de cinema que relampiando nao constava no dicionário, estava lá a palavra relampejar!

Romilda, tinha razão...e a minha dor não foi por ter descoberto o erro apenas...mas por tê-la humilhado....foi por ter dito o que disse a ela. ( foi pelo silêncio das outras crianças)
e pelos meus ares de dona da razão e a incoseqüencia de ter burlado as regras principais da minha casa e da casa do meu avô que era respeitar o outro na sua individualidade e de jamais , jamais humilhar alguem por uma condiçao menor.

E me descobri medíocre e tola, aos 9 ou 10 anos de idade....perversa, má.

E o que é pior...
fiquei sabendo no outro verão que o tropeiro velho pai de Romilda, havia retornado...e recolhido os filhos da casas que temporariamente o abrigaram e que havia recebido uma proposta de trabalho e mudado com os 10 filhos para um lugar mais perto da fronteira.(todos eles um por um e que Romilda tambem foi com a mala cheia de roupas novas, sapatos bem penteada de laço nos cabelos e sorridente...)

Eu jamais voltei a ver a negrinha ossuda, de cabelos encaracolados e risada debochada...e também jamais esqueci o que fiz a ela. Nunca tive a chance de pedir desculpas, nem de saber mais nada ...

e por incrível que pareça, desejei muito encontra-la para pedir desculpas...jamais esqueci seu nome, jamais esqueci seu rosto, e jamais esqueci das minhas palavras...
Fazem 32 anos, e volta e meia eu recordo disso, e pesa como um pesadêlo, dói como uma ferida aberta.
Esse ato da minha infância, me faz questionar coisas mais profundas.
se de fato eu nunca minimizei um outro ser humano, por razão dele ter menos condiçoes
humanas ou intectuais

Se a Romilda foi a única pessoa que eu pratiquei essa maldade, ou será que e a única maldade que eu recordo pelo fato de não ter tido razão e desse sentimento me reverter ate os dias de hoje como culpa.

Quantas  coisas posso ter feito que nem me lembro??? Talvez tenha sido perversa com mais
alguém...Mas talvez não recorde, porque se tinha razão quem sabe, isso ameniza a culpa? E faz com que esqueça a diferença entre magoar e sair magoada.

Romilda só me ensinou que quem tem duas mudas de roupa, ou nenhuma não significa que não saiba mais do que eu e nem que de ningúem...
E me ensinou com seu silêncio diante a minha ofensa o significado de coisas como
HUMILDADE E RESIGNAÇÃO.
Talvez ela provavelmente nem lembre de mim, nem lembre o fato...não saiba nem mesmo o meu nome...não recorde da minha aparência e tomara que não lembre também das minhas palavras naquele dia de tempestade, onde o céu era cortado por raios,trovões e relampejava sobre nossas cabeças

Mas eu jamais esqueço...
E desejo todas as vezes que lembro , que  ela possa ter me perdoado pela ofensa se e que de fato recorda disso...
 O fato de sermos  criança na época, não justificava o meu comportamento, e desejo de coração que ela tenha tido melhor sorte, e que esteja bem e feliz em algum lugar deste mundo.






Sapo Barnabe
Enviado por Sapo Barnabe em 25/10/2007
Reeditado em 14/07/2009
Código do texto: T709709

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Sobre a autora
Sapo Barnabe
Reino Unido
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