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Não é necessário que as lagartixas morram...

     O chefe deu um grito com o empregado que, em casa, deu um grito com a mulher, que deu umas palmadas no filho, que deu um chute no cachorro, que deu uma mordida no gato, que, furioso, engoliu uma pobre lagartixa... Se o empregado maltratado não quisesse se desforrar na mulher, ele teria quebrado, logo no início, a corrente nociva dos incidentes desagradáveis do dia. E a lagartixa não teria morrido...

     A mesma coisa acontece com as ofensas e revides, testa a testa ou escritas, pessoais ou virtuais -  ataques e contra-ataques, réplicas e tréplicas, as sutis alusões deste ou daquele lado, a paráfrase maliciosa, as farpas, as alfinetadas. Ah! Por que fazemos isso, por que tanto desgaste, tanta energia canalizada para a mesquinha e pouco civilizada prática da vingança?

     Pois – maldita seja a minha estúpida cabeça de cabra da peste nordestino! – ainda sofro muito por causa disso. Apesar do meu jeito irreverente e brincalhão, sou um típico sujeito do “pavio curto”, possuindo não só uma natureza incompatível com a tolerância como também extremamente belicosa ante a menor ofensa ou provocação.
Já me disseram que a maioria das pessoas bem humoradas possuem este paradoxal comportamento: brincam e riem como a mesma facilidade com que trocam tapas.

     Existe um sádico prazer no revide, mas totalmente insensato, porque nada do que você fizer – nada mesmo – vai anular a ofensa recebida, pois o tempo não volta jamais. Mais fáceis e com maior economia de emoções, seriam o pedido de perdão e o ato de perdoar. Mas tanto um quanto o outro contrariam as naturezas orgulhosas.

     Todos nós sabemos que Jesus Cristo falava por parábolas, narrações alegóricas, por isso mesmo cheias de implícitos significados. Assim,  fico em dúvida se o “rico” desta frase: “É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus”, é o rico como usualmente se define - o que possui riqueza material – ou o rico de acepção jamais registrada em dicionários, mas facilmente encontrável em qualquer esquina da vida – o que está entupido, transbordando de orgulho. E é justamente esse tipo de rico que não perdoa que lhe pisem os calos, ainda que seja uma pequena pisadela.

     A Zélia me deu uma grande lição outro dia, que, infelizmente, logo esqueci. Fui olhar a sua página e deparei-me com um soneto que falava de amor, de compaixão, de tolerância. Dava a impressão de que era um recado poético para uma pessoa da qual ela estava querendo se livrar, mas com muito carinho, com muita ternura, para que a pessoa não se magoasse. Um namorado rejeitado?

     Os amigos podem ser indiscretos, e eu fui. Perguntei-lhe para quem era aquele recado tão bonito. E ela me disse. Era para uma pessoa que a vinha importunando há bastante tempo, postando-lhe comentários e e-mails irritantes. Sem se deixar dominar pela revolta, entendeu que aquela pessoa precisava da sua ajuda para reencontrar-se consigo mesma. E a deu, através do belo soneto.

     Corei de vergonha! Se aquilo estivesse acontecendo comigo, tantos e-mails – com porradas e palavrões anexados – cruzariam os ares entre mim e a minha desafeta que os céus virtuais do G-mail se escureceriam!

     Ser assim é muito ruim. Especialmente para a saúde. Como eu ainda quero viver muito, vou procurar maneirar, aprender com  a curitibana Zélia algumas dicas sobre como-não-usar-a-língua-nem-teclas-nem-trocar-sopapos-por-causa-de-calos-pisados.

     E ainda que me reconheça visceralmente incompatível com o perdão incondicional, que, pelo menos, quando o efeito dominó das emoções descontroladas me atinja, eu tenha bom senso suficiente para neutralizá-lo, evitando que descambe na morte de alguma pobre lagartixa...

Antonio Maria S Cabral
Enviado por Antonio Maria S Cabral em 25/10/2007
Reeditado em 13/09/2008
Código do texto: T709769
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Antonio Maria S Cabral
São Luís - Maranhão - Brasil
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Antonio Maria S Cabral