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Anonimato

Anônimos somos todos. Corpos contra corpos, mentes enlaçadas com outras mentes, tudo em uma mistura que nos transforma em massa. Perdemos a singularidade com a qual nascemos, se é que nascemos mesmo com alguma singularidade. Nos deixamos estar parados, observando a lava nos alcançar, sem piscar um olho; é quando ficamos menos humanos, pelo menos dentro do conceito que eu tenho de humanidade. A força que mantém a gosma unida é a mesma que nos empurra cada vez mais para baixo, para o fundo de um rio lodoso e rico de matéria orgânica. Nos empastelamos nessa gosma e nesse lodo, que nos enche os olhos de marrom. Só os dentes ficam de fora, muito arreganhados em um gesto de cobiça e dor pelas coisas erradas.

É olhar e ver. O cenário se assemelha à queda de um anjo, com o mesmo fogo, a mesma desolação. Nos olhos do anjo brilham centenas de milhares de olhos pequenos, baços, semicerrados, espreitando como crianças atrás da porta na noite de Natal. O interesse, no entanto, não é tão evidente; espiam porque não há mais nada para fazer. Negror e medo ao redor, fuligem nos rostos. Somos então refugiados, meros desenhos em uma parede de caverna, presos para sempre a um vestido azul inatingível.

Vemos as jóias flutuando pelo céu sem que possamos alcançá-las, sem percebermos que elas estão também dentro de cada um. A individualidade, as idiossincrasias, as perolazinhas... Tudo embaçado por um brilho feio e falso que provém da lâmpada primeva, acesa por toda a eternidade.

Quando você nota um quê de verdade, de luz real gerada por um sol particular, mal tem tempo de pensar no assunto. Alguém o agarra por trás e trata de tapar sua visão com uma venda de pano grosso e preto, cobrindo na afobação até mesmo o seu nariz, sua boca, seus ouvidos. Os sentidos embotados pelo Anonimato, não ver mais nada, não deixar que coisa alguma passe pela muralha de mil metros que erigimos ao redor de nossas cabeças processadas pelo rica e vigorosa ordem natural das coisas.

(E porque essa cegueira? Porque permitimos isso? Onde começou o erro? Teria sido no dia em que o primeiro filósofo fez a primeira pergunta retórica?)

Provavelmente foi quando o macaco interior resolveu descer um pouco mais e se estabelecer na região do baixo ventre, abandonando as meninges, a medula, o cerebelo, os miolos cinzentos. Estando ao abrigo dos limites do racional, pôde operar com mais tranqüilidade e então fez-se a sombra jocosa, cobrindo nossos atos com um manto de ridícula transparência.

A partir daí tornamo-nos indistintos uns dos outros, criando uma sociedade de dominação – seja pela força, seja pelo intelecto, ou pela astúcia, ou pelo engodo; tudo existe para que dominemos enquanto nos atropelamos pelos degraus de uma escada que não leva a lugar algum. O medo e a coragem da civilização engendrou dois pólos, e a moléstia do Bem e do Mal, desde então, é o que verdadeiramente nos têm dominado. O resto são talheres para o banquete. Todos os embates, as guerras, as ideologias, as discussões, os sistemas filosóficos, as forças reunidas dos Altos Líderes do Mundo em prol de uma causa que invariavelmente visa um bem apenas possível para a cúpula e não para a base, tudo isso foi em vão porque jamais teve um objetivo distinto dentro do contexto verdadeiro, geral e mais abrangente.

A inutilidade de toda e qualquer ação, estratégia, dissidência, confluência, consciência e lágrima caída é o que nos enlouquece. É o segredo sob o tapete. Se um dia uma nave extraterrestre aterrissar no centro do mundo e o homenzinho verde pedir para falar com o líder, soluciona-se imediatamente o problema. Um jantar pode ser providenciado e então o nosso visitante ficaria ao lado do presidente dos Estados Unidos e mais os coadjuvantes europeus e asiáticos. Mas, se o visitante perguntasse a respeito do nosso maldito objetivo, seria no mesmo instante mandado de volta para as estrelas aos pontapés. Porque ninguém saberia o que dizer e, por baixo de cada afirmação pateticamente reforçada por argumentos falhos, habitaria um ponto de interrogação, um esgar de macaco e olhares sub-reptícios.

Conspiração! Há um motim em cada torrão de açúcar para o chá da tarde. Só que é continuamente sufocado. Não tem forças para germinar, e, verdade seja dita, não tem porque germinar, nesse poço de gosma e lodo. Se houvesse um propósito, qualquer um, estaríamos mais confortáveis. No entanto é difícil enxergar um porquê quando os olhos estão cobertos de marrom, ou quando este propósito não existe ou nunca existiu.

Desde que começamos a vivenciar o processo de “civilizamento” não temos vivenciado o resto. Estamos muito ocupados em disciplinar nossas funções físicas e psicológicas, transformando-as em funções sociais, para termos tempo para a Vida Propriamente Dita, aquela que certa vez habitou o sangue de algum piolho de primata, há milênios.
Marpessa
Enviado por Marpessa em 27/10/2007
Código do texto: T712240

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Sobre a autora
Marpessa
Santo André - São Paulo - Brasil
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