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Orla dos Anjos

I - O Desabafo centrífugo


No meio de toda aquela correria, incessantes desesperos, encontrando energias cinéticas para continuar a fuga mórbida pelas veredas e becos do destino, reunindo todos os meus minúsculos sentimentos em um único ponto da alma ímpia do qual se fazia pela primeira de todas as vagações do meu impuro coração que ao gozar, ironicamente, um sentimento esguio feito a saudade, saudade é caminhar pelas sombras ao lado da dor de Amar alguém enquanto aguarda a luz reluzente da verdade.“A natureza humana se resume na sua existência apenas em quem irá obter a vida amanhã?”.
Um dia em que o Sol não mostrou sua face com grande resplendor a espertar nossos espíritos com seus raios de luz, mas ao lugar de, no firmamento haviam nuvens turvas e carregadas de angustia que galgava o terror daquele inexplicável dia que semeou a fome para quem aqui ficara na Terra desta hera... – Ah!  Como me dói lembrar e transcrever nestas laudas todas as bagatelas daquele Fim ao Início...
Sonoramente fúnebre o ambiente com rumores de tormentos onde nas colunas do recinto refrigerado e sombrio, apoiavam-se, como crianças famintas, os lamentadores das desgraças dos homens impuros. Era sujo e imundo tudo ao derredor, lavados hipocritamente, pelas lagrimas e gemidos derramados por todos cínicos praticantes da iniqüidade.
A Razão é inimiga da Paixão (vice-versa), e sim parte do Sentimento Puro. No momento ao desejar de te esbulhar na sua alcova, rendendo-a mãos e pernas com as cordas da ilusão sexual. Com a boca gritando que não queria sentir a minha pele e nem mesmo os pelos do peito roçando ferozmente nos seus seios morenos e macios, mas com seu olhar profundo e implorador que não parasse, e às vezes ao se perder em delírios sussurrava o Amor por mim enquanto levava tapas na face já avermelhada.
- Nossa como gozei naquela tarde! E muitos que faziam chuva de suas lagrimas apouco, também ali, rendiam-se ao redor do rei de todos, o Álcool, alegrados pelo distúrbio sonoro, vulgar. Mãos em copos, outras ao mesmo tempo em cigarros, e a mercê dos olhares, mãos que apalpavam seios desnudos direcionados ao chão, e o que mais me excitou foi a mão na cabeça da deplorável que mordia o auto-relevo da bermuda jeans do velho doutor das lágrimas. – Como sou doente, não sei o porquê de ser atraído por toda vulgaridade, pelas cousas mundanas.
Levantei-me em gargalhadas mais parecendo adivinhar e adorar o destino que cada criatura ao retornar do recinto das nevoas, O Amigo do Fim. E quando chega o desmaio da tarde, o Clero dirigiu-se para quermesse, todos vestidos de branco com detalhes dourados reluzentes, e firmaram seus compromissos com a sociedade, deixando para mim toda aquela orgia onde me satisfiz e saciei-me na piscina prevaricadora. Faltando-me forças para continuar, debrucei meus braços exaustos sobre a pedra fria da janela e assisti os nobres homens e damas, maravilhados com os sermões que ouviram naquela noite.
Ao perceber um violão solitário, esquecido na parede como inanimado, busquei arrancá-lo e lancei sobre ele o sopro da vida com uma bela canção de bossa-nova, que exaltava a vida e tudo o que nela era importante. Com isso passei a entristecer a minha alma fugidia com as piores vagações (vagare por vagari) da vegetabilidade humana.

Por que gosto e me enojo com a minha vida?
Será que nasci pra gostar do que me enoja?

Cresci com uma realidade obscura e vazia, todas as minhas carências eram brancas ou negras, mas nunca respondidas com o fogo da verdade. Fui submetido a viver nas calçadas da orgia e com isso sem perceber ia afundando no vale suicida, pois a vida já me era tomada e ao crescer resolvi joga-la na lama junto com o meu corpo prostituído.
Quando nasci... Ó, como eu gostaria, pelo ao menos, saber quando devo fingir comemorar com exatidão meu infeliz aniversário. Fui achado pelo azar e ser levado no vento amaldiçoado para aquele recinto. No recinto fui crucificado com a minha mocidade, fui preso numa realidade mórbida e fria. Aprendi que sou ninguém e que sou o nada. Do nada eu surgi inexplicavelmente e para o nada retornarei tristemente, ou talvez, surfando as pragas morais. – Tudo nessa vida é passageiro, as dores do corpo que eu sentia ontem não as sentem mais, mas um dia eu a sentirei novamente, as dores da alma são feridas que se cobrem com uma camada frágil e as vezes até com o vento alísio causa uma tremenda angustia, arrebatando o corpo ao infeliz destino do vale das sombras. Ouvi falar que cheguei aqui, ainda recém nascido, cheio de Chagas do demônio espalhadas por todo meu corpo esquelético, dentro de um cesto de verão. Contam alguns que a distância, sentiam a um mau cheiro, um odor pútrido que exalava da minha inconsciência, ou ingenuidade. Foi no final de uma pestilencial tarde chuvosa. – Prefiro acreditar que o Céu ou Alguém que lá habita, estivesse sentindo as minhas dores no pranto pluvial, mas sei que tudo não passa de ilusão astral.
Uma Senhora, e talvez, a única alma abençoada dali... Cuidou de mim com muito carinho e me ensinou a bailar e aprendi o valor de uma bela canção, mas nessa época não tinha noção das futilidades famintas da vida que me esperava nos dias que um dia apareceriam ao tesouro da confusão, quando não via a Lua dar lugar ao Sol. – Poderia passar mais tempo neste estado vegetativo em autoflagelo, mas muitas palavras acabam engasgando e as lágrimas que escorrem de meu rosto em marcha acelerada acabam borrando as partes mais obscuras da minha alma nestas paginas, meu diário de vergonhas e meus escritos mais gozados.
O caminho das lamentações já era profecia em meu destino até mesmo antes de nascer, sou convencido de que devo ao sofrimento toda aminha suposta glória de vida, todos compram as amarguras da alma dilacerada do irmão. Devo a dor, as drogas terrenas e todos os sonhos familiares que nunca pude tocar, nem que os dias andem de ponta-cabeça, jamais recuperarei o brilho de não ser molestado pelos tutores.

- Na vida só há uma certeza, a morte?
- Será que os valores infantis são alcançáveis depois da maturidade?
- Ou será que o homem penetra numa ilusão e finge ser feliz?
- Será se não causará dor ainda maior?

Aos seis anos de idade, a estimada Senhora das Dores, que me criara até então, jaz desde o dia dez de abril de mil novecentos e sessenta e sete, data esta que utilizo como sincronia, ano pós ano, registrando, desta forma fantasma, idade avançando. – Hoje, dez de abril de dois mil e sete, completo quarenta e seis anos de idade, tornando ainda mais doloroso escrever aqui na laje, sobre a boca do inferno que tragara o meu anjo da guarda. Dói, dói... Mas somente desta forma e sentado aqui através destas linhas obscuras é que sinto o calor da inspiração.
A vaidade da fama e a ganância do poder que hoje me atribuem, são ilusões prepotentes, são as formas de querer enganar-me. As consultas psicanalistas é um dos meios que o homem utiliza para conformar-se e tentar desviar a atenção para a cura que nunca existiu. Na antiguidade eram criados Deuses, ou Seres divinos, em resposta ao inquestionável Tempo, Morte, Fé... Hoje é depressão e a “cura” é um homem que te ouvi por dinheiro, apenas muda de refugio, mas nunca evolui.
Tudo na vida emigra para longe do alcance de nós, seres fracos e cegos. Tudo é inconstante, é onde mora o perigo, pois quanto mais perto e seguro você se sente ao lado dos sonhos, mais fácil e perigoso será manter-se. Então levantamos as mãos para o céu e questionamos: - Tem alguém aí?
Machado Gomes
Enviado por Machado Gomes em 27/10/2007
Código do texto: T712331

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Sobre o autor
Machado Gomes
Parnaíba - Piauí - Brasil, 30 anos
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