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Livres sem Liberdade

                                           Livres sem liberdade

È um tanto contraditório lermos algumas crônicas registradas em velhos recortes de jornais do Rio de Janeiro, onde ex-escravos acostumados com as senzalas e migalhas de seus senhores, não abandonavam as fazendas preferindo a semi-escravidão à liberdade das ruas. Homens livres que não queriam usufruir da liberdade, pois toda sua vida foram serviçais e lacaios em troca de um prato sobejado da ornamentada mesa de seus “patrões”. As inovadas tecnologias foram chegando e com elas às leis que mudaram o comportamento social de todas as raças, inclusive, a Brasileira que já adquirira os hábitos lusitanos dos patrícios colonizadores. Porém o mau hábito do bom jeitinho para fugir das mais inusitadas situações e improvisar anomalias das práticas espúrias perduram hodiernamente. O slogan do “Jeitinho brasileiro” passou a fazer parte da cultura de nosso povo de forma tão impregnativa, que até na natureza querem aplicá-la de maneira inconseqüente. O Rio de Janeiro com suas formações rochosas dão um estilo arquitetônico natural de uma beleza inefável que só as mentes privilegiadas dos poetas podem espreitar. Obstante um recôndito paraíso natural chamada de ilha grande, foi palco de uma das prisões mais famosas que esta nação testemunhou, e como alcatraz foi à manchete da fuga mais famosa dos anos 80, esta cinematográfica fuga ganhou destaque nos jornais do mundo inteiro. Compilaram as idéias de outras nações de isolarem os presos políticos e a escória da sociedade em uma ilha e assim pudessem ficar livre do pesadelo das idéias contrarias as do governo, dos infames assaltos e ousadia dos sanguinários marginais.
Destarte imaginavam os legisladores livrarem o povo das barbáries que eram noticiadas diariamente nas manchetes dos principais tablóides e gazetas da época. O logro desta idéia, só foi percebido quando começaram a surgir no cenário carioca à organização criminosa alcunhada de falanges.  Que inspirados nos grandes movimentos sociais de assistência aos necessitados, recrutaram soldados do crime em liberdade para prestar apoio financeiro por meios ilícitos às famílias dos prisioneiros. Muitos nativos da ilha grande, pacatos caiçaras que se quer sabiam o que era televisão, viviam sobressaltados pelo temor de uma fuga e serem reféns da violência. O governo num gesto sensato construiu outras penitenciárias e desativou o isolado presídio da ilha grande, entregando ao ministério do turismo, para que a ilha fosse “preservada” e ser uma fonte de renda aos cofres municipais e estaduais, tendo em vista o declínio da atividade pesqueira na região.
O ilhéu ficou livre das mentes criminosas, mentes que muitos anos ficaram enclausuradas, sendo alimentadas pelo silêncio que a transformaram em oficinas maquiavélicas de idéias que aspergem em toda comunidade carcerária do país. Foram-se os Homens de roupas prisionais e aparência rude, para dar lugar aos elegantes, bem vestidos e perfumados funcionários das imobiliárias, que trouxeram bonitas palavras e promessas progressistas aprovadas pelos governantes e políticos sagazes.
Destarte iniciou-se o maior dos pesadelos daqueles que da terra tiravam seu alimento, a mata atlântica como uma cuidadosa genitora, lhes fornecia as proteínas retiradas das caças apetitosas. As algemas da ganância trazidas na bagagem destes simpáticos homens da cidade grande foram aos poucos os ludibriando, ao ponto de deixarem para trás toda a herdade histórica de seus antepassados, a fim de  se aventurarem rumo ao desconhecido com a promessa de um futuro próspero e duradouro. Mera utopia, a realidade é vista nas ruas cheias de pedintes, ociosos, delegacias lotadas de delinqüentes analfabetos e favelas nos morros sendo transformadas em quartéis do tóxico. A maioria dos protagonistas supra citados são oriundos da ilha grande, e somente no cemitério é que se dão conta que deixaram um paraíso para viverem no inferno. As imobiliárias constroem verdadeiros bangalôs, tirando assim a beleza projetada pelo arquiteto do universo, para dar lugar ao paraíso artificial das construções milionárias que abrigarão nos feriados os magnatas da selva de pedra, que claudicam a natureza e exterminam cruelmente a fauna. Aos poucos toda população ribeirinha de traços indígenas será diplomaticamente expulsa, para ser substituída por um novo povo, de aparências anglas e orientais. Esta é a mais cruel das escravidões, mostrar uma pseudo-liberdade a quem já é livre, mas desconhece a essência do que é a liberdade. O governo é o maior escravagista, pois colocam seus capitães do mato para capiturar incautos moradores que na ilusão de sombra e água fresca, trocam a fonte pelo artifício da pipa que apodrece e exauri a á passos lentos. Somente a mãe natureza que impassível assiste a degradação silenciosa, é capaz de ignorar as leis e contratos firmados por homens, com sua impetuosa fúria rasgar qualquer acordo que fira o que ela levou séculos para gerar. Exclusivamente irá retomar o que o homem está se apossando de maneira frenética e inescrupulosa, para angariar uns míseros dólares para as polpudas contas bancárias.
Sobrevoei a ilha grande há 22 anos atrás, e hoje ela retrata a ganância desenfreada dos capitalistas, grileiros, gringos, e toda espécie de capitães da usura que não se abichornam em expulsar sorrateiramente os verdadeiros donos da terra. A fim de escravizá-los nas grandes cidades, deixando para trás a liberdade, a calma, o aconchego  da natureza que os auxiliou na manutenção de sua prole por muitos anos, para serem livres porém escravos do medo, da lábia política, da violência crescente e letal do desenvolvimento urbano.


Artonilson Macedo Bezerra
ARTONILSON MACEDO BEZERRA
Enviado por ARTONILSON MACEDO BEZERRA em 31/10/2007
Código do texto: T718357

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Sobre o autor
ARTONILSON MACEDO BEZERRA
Angra dos Reis - Rio de Janeiro - Brasil
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ARTONILSON MACEDO BEZERRA