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Cidade que já foi selvagem, Cuiabá


Cuiabá não é a mesma desde que a vi pela última vez. Acho que envelheceu junto comigo. Fazia praticamente 14 anos desde a última vez que tinha estado aqui.
Não reconheci a cidade. Nas suas beiradas fizeram autopistas. Várias pontes novas e avenidas que nem sabia se existiam ou não. A mesquita árabe ao lado da sinagoga israelense não consegui encontrar mais. Será que foi derrubada?
Uma coisa que percebi de cidades. Quando alguém quiser sentir o clima de alguma cidade vá de encontro aos locais de onde chegam gente. De preferência em rodoviárias. Fui ver a rodoviária daqui. Da outra vez que tinha estado aqui vim de avião e desta vez cheguei de carro. No fundo nunca vim para cá de ônibus mas a rodoviária tem um outro sentido. É como se fosse a entrada de ar dos pulmões da cidade. Fui lá que tive acesso ao jornal local ou melhor aos dois: Diário de Cuiabá e a Gazeta. Foi lá que vi muita gente mas nada de índios.
Há 14 anos Cuiabá se orgulhava de ter uma população mestiça de índios. O que deu para ver desta vez é que os índios já não estão mais aqui. Pode ser que ficaram na poesia, ou no fundo do Rio Cuiabá junto com os Pacus, pintados,carás. Mas aqui eles não estão mais.
A população assumiu sua maioria branca como no resto do país. Desimados?
Quando aqui estive conversei com índios verdadeiros. Soube sobre a terra de ninguém onde a justiça da lança era mais verdadeira que a justiça dos fóruns. Hoje Cuiabá não assusta mais. Virou uma capital de estado como muitas que se encontra por este grande país.
Foi aqui que fui entrevistado por um repórter que fez a filmagem a estilo de sexo, mentiras e vídeo tape. Na verdade deixei as mentiras e fui falando verdades. Será que estas fitas ainda existem até hoje?
Fui pela manhã no mercado municipal. Tinha mural de poesia nas entradas. Manoel de Barros e alguns outros filhos da terra. Fiz referencia ao Rio. Se bem que suas encostas quase estavam desaparecidas. Tem cidade por tudo que é lado. Mar de casas engolindo o rio. Fui no aquário municipal e ao museu do Rio, o verdadeiro e primeiro mercado municipal. O mercado atual estava há poucos metros dali mas num lugar mal iluminado e bastante triste. Pesadas estruturas metálicas sobre balcões que mais pareciam sala de autópsia onde eram vendidas frutas, carnes e verduras.
Queria achar algum índio. Queria achar artesanato. Mesmo no museu do rio perguntei do artesanato e o cara me disse: Esta difícil achar coisa de índio aqui. Falou com certa resignação ou quem sabe um fio de culpa. Percebi que Cuiabá deixava de ser a jovem e selvagem cidade que me punha medo.
Segui as placas para o centro geodésico. Me deparei com um restaurante cheio de gente. Era o chopão que antigamente ficava a beira rio. Comi um pacu a belle moliere. Peixe local integrado a cozinha internacional. Bem servido e muito bem feito.
Mudei de idéia. Agora ia ao shopping. Já tinha ido ao shopping três Américas e nada de índio. Agora ia ao Goiabeiras.
Acabei entrando ao cinema. Assisti Alexandre o Grande. É incrível como as coisas não acontecem por acaso e como o destino é implacável e destemido perante a nossa insignificância. Não que eu me sinta Alexandre o Grande que no filme deixou claro que nunca fora grande apesar de tudo que fez. Mas foi tudo junto. Aquela trilha sonora que deveria ser Vangelis claro que deveria ser, grego, que eu adoro. A turma aqui cortou os créditos no final. Foi o fato de eu ter recebido um email de uma amiga que literalmente me achou depois de quase 20 anos. Ela mora em Zurich e nunca mais nos tínhamos falado. Foi eu ter visto que sou pequeno mas que cidades não me põe mais medo. Consegui dirigir por aqui como se estivesse em casa. Morro da luz, Av. Fernando Correia, Tenente Coronel Duarte. Foi eu ter chorado no final do filme que apesar de tudo é perceber sempre que o nosso destino é inexorável. Foi ter misturado as praças por onde passei com várias esculturas de índios com bandeirantes. Quase toda esquina tem uma que penso deve ser para lembrar o povo que aqui um dia foi lugar de índio.
E eu aqui ouvindo Andréas Volenvaider que soube através de um suíço que por incrível possa parecer de Lucern o lugar que esta minha amiga me levou e por onde passei antes da ponte queimar, que Andréas também é suíço. Coisa coincidentes que nunca são acaso. Não podem ser.
Faço aqui minha ponte área Zurich-Cuiabá. Minha amiga agora se preocupa com o mundo, especificamente com a metereologia dele. Eu continuo preocupado com as pessoas. Queria conquistar literalmente ou melhor literariamente todos que se preocupam com o ser em si.
Nila, quem sabe agora, o mundo daqui sabe que você existe ai.
Lorenzo Giuliano Ferrari
Enviado por Lorenzo Giuliano Ferrari em 03/11/2007
Reeditado em 17/06/2016
Código do texto: T721337
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Lorenzo Giuliano Ferrari
São Paulo - São Paulo - Brasil, 54 anos
1837 textos (51330 leituras)
1 áudios (2457 audições)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 20/10/17 03:30)
Lorenzo Giuliano Ferrari