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ESPELHO, ESPELHO MEU

Há certos dias em que parecemos ser outra pessoa ao acordar.
Bel era uma mulher comum, ao longo dos seus 37 anos já havia passado por muitas situações difíceis, e outras tantas insuportáveis. Agora, vivia um momento de calmaria, porém, uma rotina diária que parecia não mudar nunca. Era sempre o mesmo pálido, o mesmo “sem cor” todos os dias.
Cumpria uma rotina uniforme. Levantava-se as seis, tomava um rápido café, pretinho, básico, sem acompanhamentos, e saía para o trabalho. Era responsável pelo setor de relacionamentos de uma empresa de médio porte e morava sozinha já há algum tempo.
Naquele dia Bel acordou com uma energia diferente, uma vontade imensa de sentir-se bela, um desejo quase incontido de viver intensamente. Olhou-se no espelho, com o qual não mantinha uma relação muito amigável, e viu-se com outros olhos, desejou ser vista daquela forma pelas outras pessoas, e foi aos guarda-roupas disposta a escolher algo que valorizasse o que havia de belo e atraente em seu corpo. Escolheu uma saia estilo secretária, justa, preta, um pouco abaixo dos joelhos, que deveria ser acentuada pela blusa branca, de seda fina e um transparente sutil e ao mesmo tempo revelador. Por baixo da blusa, um lingerie delicado e sensual, branco, que deixava à mostra o colo, bem definido. Calçou um scarpin preto, discreto, maquiou-se de forma sóbria, porém destacando bem os lábios grossos e carnudos, típicos de sua afro-descendência.
Bel havia a tempos optado pelo uso do metrô e do ônibus, já que morava numa grande capital, São Paulo, e de carro teria que enfrentar todos os dias um trânsito irritante e estressante, para o qual ela não tinha a menor paciência. Apesar da lotação dos ônibus, ela não se importava. Gostava de ter os olhos livres para observar as pessoas, os olhares, a mecânica quase incompreensível de uma grande cidade.
O ônibus como sempre lotado, fazia transpirar cada centímetro de seu corpo, e, quase sem notar, aquela situação lhe fazia imaginar coisas, os quarenta minutos de viagem tornavam-se intermináveis quando sua imaginação alçava vôo.
Sonhava com encontros românticos, uma paixão avassaladora, como as que costumava ler nos romances que adorava, com um amor digno dos grandes poetas, mas com pitadas de sensualidade e erotismo, que lhe causavam arrepios. Era uma mulher intensa e cheia de sonhos.
Sem que se desse conta, numa das paradas do ônibus, alguém que entra lhe chama a atenção de forma especial. Um homem alto, forte, de uma morenice encantadora. Uma beleza incomum, sem os tons da moda, mas com algo que mexia com sua imaginação. Talvez o olhar, que parecia ter um brilho especial, terno, suave, e prendia a atenção de uma forma estranha lhe fazendo sentir arrepios. O aperto do lotação fez com que aquele estranho viesse parar bem perto dela, ficando logo atrás; era possível sentir sua respiração, seu corpo quente, e foi impossível conter a excitação que aquilo lhe causava. Novamente os arrepios. Numa viagem longa assim, em uma cidade como São Paulo, muita coisa pode acontecer. De repente, uma chuva forte, o céu parece desabar bem típico do clima da cidade. Bel descia num ponto meio distante do trabalho, teria que andar um pouco debaixo daquele temporal, e chegaria toda molhada; uma pena depois de toda aquela produção. Dias assim lhe fazia lamentar por não usar o carro.
Ao se aproximar do ponto, seu companheiro de viagem, aquele estranho encantador, percebe que Bel dera o sinal da parada, e pergunta ao seu ouvido, quase sussurrando: “Você vai descer nessa chuva?” Novamente os arrepios, ela não conseguia responder, estava atônita com o contato inesperado, no máximo consegue responder um sim acenando com a cabeça. Bel vai em direção à porta do ônibus, prepara-se para descer, e percebe que é seguida. Seu novo amigo, desce com ela, e, num gesto quase inacreditável, retira sua jaqueta de couro, e a coloca sobre seu corpo, cobrindo-a delicadamente, e segurando-a quase num abraço.
Olham-se por um instante, e, num rompante, beijam-se em meio à correria de dezenas de pessoas atrasadas e apressadas para começar suas rotinas. Nada pára, o movimento continua a vida continua, mas para aqueles dois estranhos os ponteiros do relógio decidem que é hora de um descanso, o Sol decide demorar um pouco mais a se levantar, e, apenas brinda o dia com lampejos dos seus raios, em meio aquela chuva repentina.
Bel lembra-se de uma das suas cenas preferidas do cinema, uma das mais sensuais que já assistira, imagina-se nela, está em êxtase, coração acelerado, pelos eriçados, um transe incontrolável.
De repente, é puxada pela mão, é levada por seu adorável estranho a um beco, um lugar feio, sujo, medonho, um refúgio excitante aos amantes insanos e inconseqüentes. Vivem ali um momento de total entrega, uma loucura jamais imaginada, mas muitas vezes desejada, por aquela mulher sempre tão sensata e centrada, cumpridora dos seus deveres e compromissos. São levados ao ápice do desejo, explodem junto num gozo incontido e jamais experimentado. Bel não sabe sequer o nome daquele homem, mas entrega-se ao deleite daquele momento como se o conhecesse a anos, e como se aquele fosse o seu momento, a sua paixão tão esperada, o seu amor que chegou finalmente.
Mas são cruelmente interrompidos por um som estridente e ensurdecedor.
Trriiimmmmmmmmmmmmmmmm!!!!!!! Maldito despertador !
 Acorda Cinderela, o sonho acabou! Hora de ir para o trabalho.
Enfim, vida que segue!

Monica San
Enviado por Monica San em 06/11/2007
Código do texto: T725128

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Sobre a autora
Monica San
São José do Rio Preto - São Paulo - Brasil, 47 anos
251 textos (6371 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 22/10/17 06:28)
Monica San