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Papai Noel

Estacionamento do Shopping lotado. Chegada do Papai Noel. Haverá um show pirotécnico jamais visto na cidade. Tudo marcado para as 20h.

Ao redor do palco, aquela fauna adorável de pais, mães, namorados e crianças, muitas crianças de todas as idades. Atrás, num cantinho apertado, ele se esconde tentando não ser visto.

19:35. Espera.

Ele se encolhe rezando, tomando coragem para seu ato extremo, o maior atentado terrorista da história brasileira. Ao seu redor todos esperam por Papai Noel. Um Papai Noel que nunca virá.

Ele sorri. Olha para cima do palco avistando os microfones.

19:45 Ansiedade.

Revoltado com o sistema e com tudo o mais, ele vai fazer o que é certo. O que acha certo. Todos irão ver e ouvir, nada mais será igual quando o ato estiver completo.

Vem planejando isso há meses, idealizando há anos. Só precisava de uma oportunidade e ela havia chegado. Não o haviam escutado por bem, agora o escutariam por mal. Aqueles que se salvassem.

19:50 Adrenalina

Sobe no palco o homem do som, para ver se está tudo funcionando. Pessoas continuam chegando aos montes e se acumulando ali em frente.

De seu esconderijo ele espia a multidão, centenas de pessoas, gente o bastante. Olha para o palco, tudo funcionando.

Fecha os olhos para uma última oração.

19:55 Sangue frio

Seus olhos se abrem cheios de determinação, ele avança.

Crianças e seus pais, pessoas diversas aguardam esperançosaos, indiferentes à figura negra que sobe ao palco sem ser vista.

Ele agarra o microfone e dá três pancadinhas produzindo um som desagradável. Todos silenciam e se voltam, atentos, acham que o show vai começar. Ledo engando, em breve estará tudo terminado.

19:56 É agora.

O silêncio sepulcral é quebrado por sua voz que profere firme as palavras que decorou e nas quais vinha pensando a muito tempo:

-Papai Noel não existe!

Silêncio.

Ao longe, ouve-se iniciar um choro de criança. O som se multiplica pela multidão. Crianças frustradas, choro alto.

Caos, alguns tentam fugir, carros batem em meio à balbúrdia.

-Existe, existe sim... não, não chora.... NÃO... NÃO!!!

-Olha o auau, olha o auau, neném..... O AUAU, POR DEUS!!!

Já era tarde demais.

Ele foge antes que os seguranças sequer pensem em perseguí-lo.

Está feito.
Rodrigo Urquiza
Enviado por Rodrigo Urquiza em 17/11/2005
Reeditado em 17/11/2005
Código do texto: T72604
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Sobre o autor
Rodrigo Urquiza
Recife - Pernambuco - Brasil, 36 anos
6 textos (540 leituras)
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Rodrigo Urquiza