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Reflexões sobre meus mortos

                     Hoje faleceu um tio meu, irmão mais velho de minha mãe. Como falar dele, sem falar da morte? Dizem que na morte todos somos iguais. Dizem também que não se deve falar dos mortos, como se o fato morte mudasse para sempre o que em vida foi o morto.
                      Mas não acredito que a morte nos iguale, como também não nos distingue de qualquer outra coisa viva, a não ser por um detalhe: a memória.
Também não acho que morte, obrigatoriamente apague tudo o que fizemos, tanto bom quanto ruim, afinal deixamos o nosso toque em tudo e todos.
                     A morte do meu tio não é igual, é diferente, porque eu o conheci, porque ele me fez rir quando criança, fazia umas caretas incríveis – qual a criança que não gosta de caretas? – era caloroso, bravo, falava muito e ria muito.
                     Teve durante a vida  muitos tropeços, muitas ilusões e desilusões, sonhou alto, e sofreu decepções .
                    Houve momentos em que eu realmente me senti magoada, ferida por esta palavra ou gesto dele, e  momentos  em que ele me fez sentir segura e protegida.
                    Era um ser humano, com tudo que a palavra contém, mas era o meu ser humano, parte da minha vida, que foi tocada e impregnada por tudo de bom e de ruim que vivemos.
                  A morte dele não mudou sua vida, não apaga nem reescreve quem ele foi, o que fez ou deixou de fazer.
                 A morte não o fez maior do que a vida.´
                Estava muito doente, e assim todos já dizem e dirão: descansou.
                Prefiro dizer que viveu. Viver  não cansa.
                Vida é  verbo cuja morte inexoravelmente adjetiva.
                Vivi várias mortes, pai, avós, tios, primos, amigos, e cada uma em particular, a cada uma o seu luto.
                 A morte não é uma pena, imposta aos maus, não é um repouso aos doentes, um fuga ao desespero, um acaso, um acidente.
                 A morte para mim é a conseqüência do ato de viver, quer estejamos alegres ou tristes, realizados ou fracassados, felizes ou infelizes,  preparados ou não: ela virá.
                 Aceitar a saudade, guardar aqueles que se foram em nós, talvez seja o único ato que honre a passagem dos que amamos, pois assim não perderemos nada.
                 Somente assim, posso dizer até logo aos meus mortos, que no caso do meu tio é a deliciosa lembrança de passear de mãos dadas, rindo das caretas e histórias que ele contava.
ana jacinta
Enviado por ana jacinta em 08/11/2007
Código do texto: T728114

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Sobre a autora
ana jacinta
Curitiba - Paraná - Brasil
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