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Amante à moda antiga

Tudo começou naquele encontro casual na floricultura. O relógio marcava nove horas da manhã quando ele estava entrando e o outro sujeito, moreno, alto, de bigode, saindo. Quase colidiram na porta. E o enorme ramalhete de flores, com cerca de 30 rosas brancas e vermelhas, que o outro levava nas mãos, chamou a sua atenção. Foi então que resolveu comprar um igual. Afinal, nada melhor do que presentear a sua “filial” com aquele belíssimo buquê de flores. Ela era tão compreensiva. Nunca reclamava da sua condição de homem casado e sempre estava pronta, naqueles poucos momentos em que conseguiam se encontrar, para cobrir a sua vida de carinhos. Ninguém melhor do que ela para merecer aquelas flores...
Pagou caro pelo ramalhete. E pagou um pouco mais ainda para que as flores fossem enviadas diretamente para a casa da “2ª dama”. Não poderia deixar furo. Se fosse visto saindo da floricultura com aquela belezura de buquê, logo a sua mulher saberia de tudo. Foi discreto até mesmo no cartão que escreveu para colocar junto com as flores: “Tu sabes que és a primeira no meu coração”. Não assinou e nem colocou o nome da amada. Nem precisava. Ela logo saberia que o presente era dele. Ainda mais naquela data, 21 de setembro, quando o calendário marcava o Dia da Amante...
Trabalhou o dia inteiro esperando um telefonema de agradecimento da sua amada-amante. Mas o telefonema não chegou. Até tentou ligar para o apartamento dela, do seu celular, mas não conseguiu completar a ligação. E não quis pedir para a secretária tentar, pois poderia levantar suspeitas. Lamentou não ter tempo sobrando para fazer uma visita-surpresa e saborear em carícias aquele “investimento florido”. O dia terminou sem surpresas. Mas a surpresa maior, sem que ele soubesse, estava esperando na sua própria casa...
Quando entrou no “doce-lar” a mulher não estava. Num bilhete, avisava que tinha ido ao instituto de beleza. “A bruxa querendo se enfeitar”, pensou em voz alta. Quase caiu duro, porém, quando penetrou no quarto e viu, sobre a cômoda, um buquê de flores exatamente igual ao que ele havia enviado para a casa da amante. Seus pensamentos dispararam: como um raio, surgiu na sua mente o fantasma do “cara” moreno, alto e de bigode da quase colisão na floricultura. Sentiu uma estranha coceira repentina na testa. Começou a imaginar que aquele sujeito metido a bonitão era amante da sua mulher. Só poderia ser isso. Receber flores no Dia do Amante!!! Desgraçada. Que instituto de beleza, que nada. A esta hora ela deveria estar em algum motel lambendo os bigodes daquele miserável!!! Sentou na cama, arrasado, com a cabeça entre as mãos. Naquele momento, escutou o barulho da porta se abrindo. Só poderia ser ela, a maldita traidora...
A mulher veio quase correndo na direção dele, cabelo cortado e arrumado, toda maquiada e enfeitada. Nem conseguiu falar. Foi sufocado por um abraço e um beijo. E ela começou a desfiar um rosário de agradecimentos pelas flores e de desculpas “por não estar sendo uma boa esposa ultimamente”. Elogiou o cartãozinho escrito com a letra dele, com a declaração de que ela era “a primeira no seu coração”...
Um turbilhão passou pelos seus pensamentos. Só poderia ser isso. Na hora de escrever o endereço para a entrega das flores, pela força do hábito, colocara o da sua casa no lugar do da amante. Um calafrio desfilou pelo seu corpo. Ainda bem que não escrevera o nome da dita cuja, senão... Sentiu dois pesos pontudos saírem da sua cabeça... E se entregou de corpo e alma para as carícias da esposa, que nem lembrou de fechar a porta do quarto para começar a se despir.  Foi o melhor Dia da Amante da sua vida...
Milton Souza
Enviado por Milton Souza em 17/11/2005
Código do texto: T72831
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Sobre o autor
Milton Souza
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 71 anos
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Milton Souza