DE CASO COM A MORTE

Um tempo atrás estive de caso com a Morte, vou lhes contar como foi. Eu vinha numa curva da estrada, quando a danada cismou de bailar comigo. Sem nenhuma cerimônia tomou minha mão e me levou pra valsar.

Confesso, por alguns instantes pensei que fosse minha última dança. Eu trajava um terno negro e uma camisa também cor da noite. Somente a gravata, de um vermelho bem encarnado, contrastava com o negrume das minhas vestes.

Por certo que a morte me escolheu pra dançar por estar bem vestido!

Mas não me achiquei, valsei com a Morte de rostinho colado. E quando a danada chegou querendo em mim meter os beiços, me fiz de difícil e só beijei-lhe o rosto.

Bem assim, eu sou mesmo atrevido e quando pequeno já espiava debaixo da sua saia. Lembro que com cerca de três anos cai sobre as garrafas de vinho do meu pai. Sangrava mais do que um porco. Peço perdão pela imagem.

Mas voltando ao bailado, eu recusei o beijo da peste. Não que nessa vida eu só tenha beijado china bonita, mas casar com essa maldita não era um bom negócio pra mim. Dei só um beijo no rosto da desgraçada e ela me tomou todo o patrimônio. Um Pálio branco que o seguro deu perda total.

Não bastasse isso, a desgranida me fez perder a audiência que eu deveria fazer naquele dia. Não tem romance com mulher deste tipo. Chega assim de repente e quando vê se apossa da nossa vida. Nunca gostei de mulher possessiva.

Eu sei que um dia ela trama beiço comigo. Como disse o pajador 'morro quando Deus quiser', mas garanto que morro advogando. Procurando recurso e jurisprudência que me tirem do sufoco.

As pessoas que conhecem essa história quando me encontram mexem comigo, dizendo que sou o cara que namorou a Morte. Mais do que rápido eu respondo que foi só um selinho...