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Testemunha celular da história

 

Depois de visitar o meu galhodearruda.com e ler algumas crônicas de minha autoria sobre recordações de infância e adolescência, um espírito gozador manda perguntar por e-mail se eu não teria, nessa linha memorialística, uma ou outra anotação, como testemunha ocular (grifos dele), acerca da manhã de 15 de novembro de 1889. Como sabemos, nesse dia Deodoro da Fonseca, à frente de meia dúzia de soldados, dá uns tiros para o alto na Praça da Aclamação, hoje Campo de Santana, e derruba o Império. Pela rapidez com que o enfermo D. Pedro II e a família real acatam a ordem de despejo e pegam um navio para a Europa — em apenas dois dias, numa época em que viagens de tal porte exigiam semanas de preparação —, deve ter havido antes um ensaio geral.

Além dos tiros e do desembainhar de duas ou três espadas, houve também, nos corredores e salões do Ministério da Guerra, uma confusa troca de tabefes entre monarquistas e republicanos. No entanto, na promulgação da Carta de 1891, muitos desses contendores já estavam numa boa entre si, e passaram a trocar, em vez de tabefes, favores, agrados e tapinhas nas costas, inaugurando nosso primeiro balcão parlamentar de negócios da era republicana.

Mas tudo isso é coisa de almanaque, com alguns remendos de minha lavra.

Na linha memorialística propriamente dita, como quer o autor do e-mail, sei lá, minha cabeça anda meio confusa.

Naquela manhã eu não passava de uma bela esperança mitocondrial no corpo de uma mocinha de apenas dezenove anos de idade, minha bisavó, e com toda a certeza, no meu recesso celular, não devo ter dado muita bola a esse episódio claramente palaciano.

E não era para menos.

D. Rita da Fonseca, de família paupérrima apesar da coincidência de sobrenome com o marechal-tarimbeiro, morava numa vila de casebres no bairro da Gávea, e só deve ter deixado de tomar a bênção aos viscondes e viscondessas do Jardim Botânico na virada do século, quando finalmente D. Jardelina da Fonseca, minha avó materna, veio ao mundo, tornando-se a verdadeira estrela republicana daqueles tempos. Pelo menos para o caminhão de netos que teve ao longo de sua longa vida.


[12.11.2007]

Luiz Guerra
Enviado por Luiz Guerra em 12/11/2007
Código do texto: T734609

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Sobre o autor
Luiz Guerra
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 69 anos
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