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MARIA (lágrima)

        -- Anda logo... Alguém pode chegar a qualquer momento! - sussurrou um deles.

-- Espera! Eu não quero que sobre nada pra mim não... Vamos, me ajuda a levantar isso aqui! - o outro respondeu aflito.

-- Eu avisei pra fazer isso em outro lugar... Viu no que deu? - e com um arranco brusco um dos rapazes levantou o saco, preto, manchado de sangue.

-- Ah cara! Não me enche! A gente joga isso aqui e finge que nunca viu...

-- Então anda! Um... dois.. três... - e assim, Maria, adolescente sonhadora, 15 anos, 3 deles gastos em más companhias e sonhos induzidos, vítima de uma vida alucinada e entorpecida, foi “esquecida” em um lugar que seus “melhores” amigos fingiram nunca ter visto.

Este talvez seja um breve momento em nossa realidade. Mas, por mais incrível que seja, a gente acaba se acostumando, se compadece da dor alheia e levamos nossas “atarefadas” vidas para a frente, empurrando nosso destino para o mesmo buraco onde a pobre Maria foi jogada, dentro de um saco negro, como se fosse um pouco de lixo. Um lixo que era capaz de sonhar, beijar, amar, errar... Suicidar!

Era noite quando os pais de Maria receberam um telefonema da delegacia informando sobre o fato: sua filha, de 15 anos, não havia voltado da escola ainda porque havia saído com uns amigos que ninguém conhecia... E não voltaria para a casa porque seu corpo agora estava sendo retirado de um barranco profundo, coberto de barro e mata fechada.

O pai não precisou dizer nada para a mãe que esperava alguma resposta desesperada, logo ali ao lado da cama da garota, ainda desarrumada (ela fazia questão de arrumar suas coisas do próprio jeito). Apenas o olhar desconsolado do pai foi necessário para fazer vidrar os olhos da esposa de dor, lágrimas... horror!

Dos membros da família abalados pela tragédia, apenas um dos primos da garota, com pouco mais de 20 anos, foi capaz de se manter lúcido, acompanhar o delegado até o local do evento, em meio à tempestade, reconhecer o corpo da estudante e ligar para o pai informando que o pesadelo era real, e estaria muito longe de terminar.

A noite foi longa... o dia também... Estuprada, com as narinas ressecadas e manchadas de sangue... o corpo da garota, agora frio, exalava cheiro forte de bebida alcoólica e ainda, após primeiro contato com a perícia, ficou provado que uma overdose aconteceu antes que ela parasse de gritar, em uma mistura de, talvez, luxúria, dor e loucura.

A família não conseguia compreender qual foi o erro... quem foi o culpado... Há alguns meses suspeitava do envolvimento da garota com drogas, por seu estado alterado, irritadiço, deprimido... as notas pioraram e os amigos foram trocados. Maria não namorava mais, mas o garoto que namorara meses antes não parava de chorar... talvez fosse vítima do mesmo sentimento dos pais: impotência perante as promessas sedutoras de liberdade e independência que giram ao redor de quaisquer jovens hoje em dia.

O tempo passou... na verdade, escorregou entre os dedos dos pais de Maria. A avó, doente, até hoje não sabe do motivo verdadeiro do falecimento da única neta, sua afilhada. Tem gente que a transforma em mártir de uma doença social, tem gente que fala de Maria como se fosse uma santa, tem gente que a condena... outros, como eu, apenas se lembram de Maria como uma pessoa, acima de tudo, imperfeita como todos... Outros, como eu, ainda se lembram do sorriso de Maria, ainda se lembram das maldades que muitas vezes transpuseram seus toques angelicais, e dos gestos de carinho e amor que compartilhou com tantos... Maria, acima de tudo, imperfeita, como todos nós!

Maria, adolescente corrompida pelos próprios sonhos... Criança, fruto de um casamento de apaixonados, criada por um amor desmedido, controlada por um rigor paterno digno de honrarias, libertada por um amor materno invejável... Excelente educação, curso de inglês, espanhol... Adorava as aulas de informática (diziam que era afim do professor). Rebelde sem causa, como eu... Apaixonada pelo som pesado de bandas estrangeiras, encantada pelas eternas melodias de grandes compositores clássicos...  Maria evitava a baderna, mas não corria da bagunça... Viajou por todo o Brasil com os pais: Rio de Janeiro, Porto Alegre, Salvador, até Manaus.

Jovem de sonhos acelerados... Vivia no mundo em que vivemos, assistia aos programas que assistimos, conversava sobre sexo e rock n' roll... Falava da vida com os olhos brilhando. Até, dizem, escrevia poesias. Hoje, anos após a morte da garota, a família ainda busca o caminho para superar a perda, e os parentes não sabem como contar para a avó, que já começa a se despedir de todos, indo se encontrar com a neta... quase 80 anos mais velha que a afilhada.

Certo dia eu e o pai de Maria caminhávamos por uma avenida às margens do rio que corta a cidade e ele, com os olhos vítreos, em lágrimas, me perguntou o que eu sabia sobre a filha e que ele não sabia. Eu obviamente disse que ele era o pai, sabia tudo... E ele me pediu para que, por favor, pudesse lhe dizer.

Eu parei alguns instantes e resolvi dizer:
-- Sua filha era como você e eu, quando jovens. Rebelde de causas sem fim, apaixonada, poeta, cheia de amigos, cheia de namorados, cheia de amigas, cheia de namoradas. Como eu e você, sua filha vagou pela trilha de algumas drogas, hoje tão temidas por nós... Em nossa época podíamos nos dizer rebeldes, fumar nossa maconha e falar de paz e amor. Diga-me, amigo, qual jovem hoje não deseja isso?

Ele caminhava ao meu lado, calado.

-- Além do mais... Maria sabia cuidar de si. Ela se embebedou, se entorpeceu e sofreu as conseqüências por ter escolhido mal os amigos. Essa é a verdade. Mas, o que mais devemos esperar do mundo que deixamos para nossos filhos? Lembra-se que, quando rapaz, eu disse que jamais colocaria filho no mundo, pois não tinha coragem de lhes dar os restos de um lugar que já foi habitável e apaixonante? Então... hoje tenho meus filhos, mas, talvez questione se merecem esse pesadelo...

Caminhamos por toda tarde, fomos longe. Lembramos de Maria em vários momentos, mas, aos poucos, via nascer um sorriso tímido no rosto de meu amigo, e, prometi a ele que faria algo a respeito. Prometi que faria algo pela dor que queima em sua família e que sempre seríamos irmãos.

Tenho tanta vergonha de tudo aqui ao meu redor. Quem são as Marias de hoje? Filhos de uma geração de sonhadores que caiu na amargura da realidade. Filhos de uma geração que gritou paz, mas que hoje fecha os olhos para a violência social que estupra e tortura nossos filhos. Uma geração que fecha os olhos para loucos que explodem prédios e pessoas... sonhos! Uma geração que fecha os olhos para guerras falsas de falsos líderes mundiais... Uma geração que fecha os olhos para as manipulações insanas da mídia mentirosa, que fecha os olhos para olhares maquiavélicos vendidos sob capas de bíblias sagradas. São pessoas, nossos pais, que lutaram por alguma coisa, e, hoje, nos privam de dar a vida por causas rebeldes e revolucionárias, se confortando com que percamos nossa vida em ônibus assaltados, festas irresponsáveis, tráfico de drogas, prostituição... Todo dia lemos uma nota no jornal sobre dezenas de Marias, mortas de maneiras piores... E nossos pais ainda questionam se vale a pena corrermos o risco por causas mais sérias, como militantes políticos ou corajosos poetas da realidade, denunciando a apatia que os sustenta e fomenta o espírito livre do consumismo hedonista e narcisista que nos embrutece e obscurece.

Um dia presenciei um professor dizendo que somos uma geração de embrutecidos pelo medo de questionar, e, pior, enfraquecidos por nossos pais, que preferem que morramos de stress ou angústia, vítimas da violência social e urbana absurda que assombra as metrópoles e os vilarejos... Preferem que sejamos estuprados pela mídia... Preferem que sejamos conduzidos ao suicídio em massa ou que matemos uns aos outros... Mas jamais concordarão com nossa capacidade de escolher nosso destino, lutando com armas políticas e intelectuais, que nos “queimarão” na sociedade... a mesma sociedade que fomenta nossa auto-destruição... Sabem o que eu disse? - CONCORDO!

O tempo passou... o mundo não mudou. O tempo passou, o medo cresceu, o mundo não mudou. A polícia ainda faz suas investigações. Os anos passaram... Eu conheci pessoas que conheciam pessoas que não deveriam conhecer outras pessoas. Refleti muito sobre o que iria fazer naquela noite. Maria não será outro borrão nos relatórios policiais que se amontoam nas páginas da Justiça traída e traidora. Maria, filha de meu maior amigo, meu irmão, foi estuprada e assassinada pelos rapazes que agora se deleitam em noitada no bar ali perto. E eu conheci pessoas, que conhecem pessoas...
Callis Morius
Enviado por Callis Morius em 14/11/2007
Reeditado em 14/11/2007
Código do texto: T736850

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Sobre o autor
Callis Morius
Itaúna - Minas Gerais - Brasil
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