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Se eu fosse um biguá

Depois de termos assitido uma matéria que discorria sobre o uso do pássaro como 'vara de pescar' (o seu dono põe argola no pescoço, ele mergulha, pega o peixe, mas não consegue engolir) e discutirmos sobre como o pobre biguá deveria sentir-se, meu amigo olha prá mim e diz: - Desafio você a escrever. O tema é: e se eu fosse um biguá?
Sairam as palavras abaixo:

             Se eu fosse um biguá...
Meu nome seria Biguá, com b maiúsculo como convém à regra gramatical. O significado do meu nome traduz um traço físico - mbiguá - pés penugentos. O nome da minha família é bem pomposo: Phala crocorax brasilianus.
Bom, provavelmente como ave eu seria como na minha versão humana – a maior de todas. Teria pernas e asas compridas e meu cantar seria como o som, bem agudo, de algum aparelho de televisão. Também viveria em bando – necessitando das imperfeições alheias para bem conviver com as minhas.
Gostaria de peixes e mergulharia um sem-fim de vezes procurando as escamas mais brilhantes para saciar minha fome. Como um pássaro engajado teria grande dificuldade em lidar com a exploração da minha habilidade de exímio pescador – cena insuportável ver meus irmãos de argola no pescoço, na escravidão que só os homens sabem impor sem piedade. Quem não tem piedade é cruel.
Seria um biguá revoltado caso passasse de pássaro à vara de pescar. Minha cara estamparia a tristeza da resignação, um cenho franzido, cheio de marcas profundas causadas pela impotência de resolver a situação.
O menor oprimido, como a ave argolada, não tem altivez, caminha de cabeça baixa, cantarola um sonho interno de se ver libertado, de ser libertário. Contudo, o opressor é mais forte, insensível e egoísta – apenas a meta importa.
O biguá livre é como o pecador absolvido pelo Senhor – tudo é céu e eternidade. O biguá argolado, como os escravos do Faraó – ansiando por nova terra e novo céu.
Se eu fosse um biguá... Queria ser uma ave completa – livre, linda e louca. Louca não dos meus sentidos, mas das minhas vontades – voar por onde quisesse, pousar onde bem entendesse, pescar quando estivesse com fome e – imprescindível - engolir minha pesca.
Se eu fosse um biguá, sendo criatura e ave de Deus traria comigo pedaços de muitos céus e campinas bem verdinhas. Não quereria estar no Rio Vermelho, refém de um senhor de olhos puxadinhos – no corpo e na alma – que me pusesse adornos.
Talvez se eu fosse um biguá eu quisesse ser outra ave – um cancão, uma rolinha, um tetéu, uma asa-branca ou até um guiné (que grita ‘tô fraco’ para esconder sua fortaleza).
Se eu fosse um biguá argolado, acuado e tristonho, com olhos vazios de alegria e cheinhos de desejos – seria infeliz, revoltado com minha sorte, porém com certeza teria do meu lado um amigo passarinho – um beija-flor ou um lourinho – cantando sempre uma pergunta: - e se você fosse gente? Lanço o desafio...
Valéria Britto
Enviado por Valéria Britto em 17/11/2007
Código do texto: T740847

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Sobre a autora
Valéria Britto
Arcoverde - Pernambuco - Brasil, 45 anos
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Valéria Britto