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O Meia-Noite e a Meia-Noite

O gato negro miava para a lua, a lua nada dizia. Era uma noite calma de verão. Estava quente e úmido, o céu apresentava nuvens mas a lua era bem visível, as ruas já estavam desertas, os sinais de transito brilhavam seu aviso amarelo, os poucos ventos levavam as poucas folhas caídas ao chão e as espalhava pela rua, não se ouvia nada, apenas alguns miados, apenas alguns latidos.
Meia-Noite, era um gato preto, preto como tal noite que eu descrevi acima, negro como o mais denso e deprimido café das manhas cinzas, negro como a escuridão. Meia-Noite era um dos responsáveis pelos barulhos da noite, ele miara, miara, miara, miara.
- O que foi Meia-Noite? – diz sua dona aparecendo a janela. Sua cara pálida ainda com maquiagem negra de seu trabalho, ainda com seus olhos azuis e cabelos cacheados aparecem junto a ela na janela. Ela era conhecida como Karolina, mas a noite não a rotulava com um nome – algum problema?
Karolina olhava para o mesmo lugar do que seu Meia-Noite olhava, para a mesma direção furando a noite. O vento balançava poeticamente sua camisola branca, de preparo para um banho e logo mais para dormir. O vento invadia os seus aposentos como um ladrão furtivo tentando roubar o calor daquele verão.
O relógio digital na parede condenava as horas: 23:46 era o que o mesmo dizia.
- Não apronte Meia-Noite, “mamãe” vai tomar banho e volta já – diz Karolina maternalmente para seu bichano enquanto caminha até o banheiro.
Meia-Noite observa a noite chegar ao seu clímax. O vento sopra sutilmente pela rua, o relógio digital condena as horas novamente, e os olhos de Meia-Noite, espertos seguem o invisível para os humanos e o visível para eles, seres de tal sapiência. Meia-Noite espera pacientemente sua “xará” chegar, espera ali no parapeito da janela, observando todo o movimento constante e inconstante, observando toda a física Newteana, observando todas as explicações Freudianas, observando tudo que seus olhos rápidos podem observar, todos os movimentos da noite que sem deixar vestígios move tudo de lugar e de tempo.
Karolina toma seu banho calmamente, o chuveiro frio para refrescar a alma, seu corpo despido para ela mesma e para a água. Karolina sente vontade até de cantar uma canção, mas o cansaço do dia de trabalho maçante e massivo a deixa exausta até para um simples gesto. Karolina deixa a água cair em seu corpo, como Meia- Noite deixa o vento entrar em sua alma. Karolina sabe que ela e seu gato compartilham a mesma alma e sentem as mesmas coisas, os mesmos sentimentos, os mesmos medos, e acertam até as mesmas coisas, tal hora ele é o animal, tal hora ela é o animal. A palavra não seria correta para felinos, mas talvez sim ela fosse um felino da estepe... Talvez não. A água caia em seu corpo o deixado refrescado, o xampu deixava as bolhas brancas e o sabão em sua cabeça que pesava tanto quanto os pensamentos, e o sabonete era seu namorado em tal hora.
Meia-Noite era paciente em esperar ali naquela janela sua outra metade (não sua dona) chegar. Mesmo tendo o sono felino, mesmo ali sentado a horas, ele espera paciente, por que não?
Um miado sem espera é jogado para os ventos. Em linguagem humana seria um “onde está você minha cara metade?” ou então “venha logo, pois tenho pressa” mas nós seres humanos somos egoístas em entender só o que falamos. Outro miado que poderia ser até uma poesia:
“Onde está você oh minha amada
Que me deixa sentado aqui nesta sacada
Com fome, frio ou com sede e calor
Que me deixa esperando sentido este amor
Onde está você doce cara metade
Que me dá uma grande vontade
De fugir atrás de você
Mas espero pois é aqui em minha casa
Que eu quero te ver”
Mas os miados só foram feitos para poetas felinos. Karolina sai de seu luxuriante banho frio e relaxante, seu súbito olhar para o relógio que condena novamente as horas (23:59) e sua súbita fome poderia ter levado-a até a cozinha, mas seu Meia-Noite a faz parar e prestar a atenção no quanto a natureza é sabia. Meia-Noite espera já impaciente, seus miados já estridentes alegam o quanto ele não gosta de esperar.
- O que você tem meia noite? – diz sua dona, seu segundo amor, Karolina, fazendo um afago até então ignorado pelo bichano impaciente. Karolina acompanha seu gato e também espera olhando para fora, olhando para o mundo liberto, olhado atrás de suas grades necessárias, atrás de sua sensação de segurança.
O relógio digital avisa: “00:00”
Meia-Noite finalmente esboça um miado que para ouvidos humanos pareceu feliz, para ouvidos felinos foi um miado feliz. Meia-Noite miava com alegria, sua alma gêmea finalmente chegara, finalmente viera a sua presença e pairava sob o ar. Karolina entendera a espera de seu bichano, Karolina entendera que ele era um gato apaixonado, e só tem sessenta segundos para delatar seu amor para sua alma gêmea: A meia-noite.
“Oh Meia-Noite, em fim chegastes!
Tiraste da alma deste bichano todo os desgastes
Tiraste minha incerteza sobre de quem é o teu coração
Pois se vinhetes até mim significa que tens o meu
E que sou todo seu”
Miava o Gato Meia-Noite, para sua amada, a meia-noite.

Seu amor era fiel e incalculável, mas sua amada sofria de um mal, um mal mortífero: Ela só poderia resistir durante sessenta segundos, e logo depois falecia, morria, desaparecia na hora seguinte. Dito e feito, A Meia-Noite morreu, seu amante felino entristeceu-se por segundos, chorou pela morte de sua amada, chorou por não ter declarado sua ignorância e ter-lhe pedido um beijo sutil, chorou por ter sido arrogante e mesquinho, chorou por nada ter feito e como num romance trágico, chorou.
Toda vez que Karolina chega em casa (isso pelas dez, onze horas) lá esta Meia-Noite esperando sua amada voltar, nem que seja por sessenta segundos, nem que ele tenha que ver-la morrer todos os dias.
Rhuan Rousseau
Enviado por Rhuan Rousseau em 18/11/2007
Código do texto: T741686

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Sobre o autor
Rhuan Rousseau
Fortaleza - Ceará - Brasil, 26 anos
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Rhuan Rousseau