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KBELERERO


Sempre estamos reclamando do nosso dia-a-dia cansativo, e no meu caso, das aulas enjoadas e das cadeiras desconfortáveis que usamos na nossa “dura” adolescência. Mas eu acho que existe um tipo de trabalhador, uma classe, que não reclama do seu trabalho tanto assim. O cabeleireiro.
Não só pelo fato de ficar o dia todo ouvindo fofocas alheias do povo do bairro. “Viu o que aconteceu com o Lauro?”,”Não me diga!! Eles terminaram? Ah, mas é agora que a Juana da em cima dele mesmo! Não fala para ela que eu te falei, viu?”, “Eu tava quase esquecendo de dizer que os números do jogo do bicho são (...)”. Números do jogo do bicho já é de mais! Nesse momento o homem havia escondido um panfleto debaixo do agasalho falando bem baixinho no pé do ouvido do seu camarada.
Mas imagina poder conviver com várias pessoas o dia todo? Você corta o seu cabelo, e em troca você ouve histórias estranhas, boas, legais, engraçadas, terríveis, ridículas. Enfim! Histórias. Qualquer coisa por uma boa história.
-Bom dia seu João. Qual vai ser a de hoje?
-Um bom corte nessas minhas costeletas grandes aqui, Mário.
-Pois bem, por essas costeletas quero uma história de curto prazo.
-Então pode começar... Teve uma vez que...
Imagina! Imaginou? Então é melhor parar de imaginar, porque se existisse um lugar assim ele ia a falência no primeiro mês de atividade. Ninguém mais liga para histórias de vida, ou para a própria vida e suas coisas simples. Mas talvez o cabeleireiro sim. Alguns, poucos. Entre 10 apenas metade, quem sabe?
Eles tem bons motivos para gostar de história, o primeiro é porque vão passar o resto da vida fazendo aquilo e o segundo é porque ninguém ( ouviu? NINGUÉM!) passa a vida sem querer ouvir um famoso “babado”. Vai dizer que não é um dos seus maiores desejos descobrir por que o seu vizinho sempre sai de carro às três horas da manhã? Viu? Na altura desse campeonato você já gravou o horário e todos os detalhes, e chama sua esposa ou esposo para poder compartilhar desse Reality Show. E os cabeleireiros sabem disso e muito mais! Eles tem o dom de fazer as pessoas se sentirem a vontade e de abrirem seus corações para eles e contar seus problemas ou suas vitórias.
Uma vez, sentada na sala de espera (que não é bem uma sala, mas estava valendo), fazendo palavras cruzadas, parei em uma perguntinha infeliz que não conseguia interpretar: “Pseudo amigo da mente, ajuda indivíduos a serem melhores ou a interpretar seus problemas”. A primeira vista pensei muitas coisas, mas não cabia nada naquele pedacinho minúsculo. Então olhei para o vácuo e ao mesmo tempo ouvi o barulhinho daquelas coisinhas penduradas na porta de entrada de alguma loja ou Salão de Beleza, que era o caso, era uma senhora entrando com várias sacolas na mão dando bom dia a todos com uma expressão abatida. Uma das moças que estava sem nem uma cliente para atender foi até ela e lhe ofereceu um tratamento capilar, a moça aceitou logo de primeira. Então as duas foram até a cadeira para lavar os cabelos da mesma, e começaram a conversar. A princípio eu não ouvi nada, mas pude interpretar que falavam de problemas, até que uma hora a senhora começou a chorar de forma desenfreada. A moça parou de mexer nos cabelos da senhora e voltou-se a sua frente, falando palavras reconfortantes. Deu para perceber pelo seu sorriso meigo e pelo modo como lhe acariciava o rosto, e logo as duas se abraçaram e riam da situação e continuaram com o tratamento capilar.
Eu, em minha sã consciência tive uma idéia de girico! Olhei para as palavras cruzadas, e cortando uma letra aqui arrumando uma sílaba ali, coloquei no lugar da pergunta infeliz: “Pseudo amigo da mente, ajuda indivíduos a serem melhores ou a interpretar seus problemas”. – KBELERERO.
Embora estivesse errado, meu espírito se sentiu muito bem em fazer isso, primeiro por ter assassinado o português tão bem, e segundo porque ninguém precisa de um especialista em mente quando se tem um especialista em vida.
 
Nannye
Enviado por Nannye em 22/11/2007
Código do texto: T747434
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Sobre a autora
Nannye
Florianópolis - Santa Catarina - Brasil, 25 anos
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Nannye