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Música x Autenticidade - A Difícil Tarefa de Montar Uma Banda

  Para começar, quero dizer que realmente não escuto e não me sinto em nada atraído pela música que é criada neste mundo atualmente. Como um bom ouvinte de rock, desde a minha infância, tenho escutado bandas que surgiram e acabaram muitos anos antes de eu nascer. E por quê isso? Por que tanta gente jovem se sente atraída pela música de décadas passadas? Tenho certeza, de que falta muita coisa nessa música que anda tocando nas rádios. Falta autenticidade.

    Nos anos setenta, quatro rapazes de Nova York, causaram uma grande revolução na música quando resolveram montar a sua própria banda. Apesar, de terem sempre estado envolvidos com a música, eles não eram músicos; não tocavam instrumento algum. Dividiram as funções de acordo com o interesse e a habilidade de cada um. Um queria ser guitarrista e então comprou uma guitarra. O outro lhe disseram que tinha uma voz grave e então decidiram que ele iria cantar. Foi mais ou menos assim; e desse jeito, eles montaram uma banda de rock que entrou para a história. Eles são os Ramones.

    Algum tempo depois, na Inglaterra, de uma forma muito parecida, surgiram os Sex Pistols. Eles eram jovens inquietos, que tudo o que queriam na vida, era se tornarem rock stars. Trataram de conseguir instrumentos e aprender a tocar alguma coisa. Com o vocalista então, a coisa foi mais absurda. Ele estava andando na rua, e o dono de uma loja de roupas que havia ajudado os rapazes a montar a banda, o viu e achou interessante o seu visual. Então lhe perguntou se ele queria ser o vocalista de uma banda de rock. Ele acabou aceitando e, na hora mesmo, foi até a loja para tocar uma música com os demais integrantes. A banda se formou ali. Durou um pouco mais de um ano e eles gravaram apenas um único disco. Mas foi tempo suficiente para eles apavorarem a conservadora sociedade britânica e se tornarem conhecidos no mundo inteiro.

    Tudo bem, os Sex Pistols mal sabiam tocar; mas por acaso alguém que foi a um show deles estava preocupado com a habilidade e o talento deles para tocar algum instrumento?

    Sei que os Ramones, algum tempo depois de formarem a banda, fizeram um show; e depois disto perceberam que ainda precisariam ensaiar muito até aparecerem em público novamente. E foi assim que eles fizeram. Ensaiaram bastante e criaram novas músicas.

    É claro que antes dos Ramones e dos Sex Pistols, muita gente sem conhecimento musical, mas com cultura musical, se arriscou a fazer música. Muitos deles se imortalizaram, e não é preciso dar exemplos, este é o caso de quase todas as lendas do rock.

    Mas o que isso tudo tem a ver com o que eu estava dizendo no primeiro parágrafo? Eu estava dizendo que falta autenticidade às músicas feitas pelas bandas novas. Depois do punk rock dos anos setenta, todo mundo quis ter a sua própria banda. Todo mundo compreende que fazer música é possível a todos. E todos sonham em se tornar astros do rock.

    Eu nasci no início dos anos oitenta, e com a exceção das bandas gaúchas, não me lembro de nenhuma banda de rock, que tenha surgido após essa época, que me agrade.

    Confesso que fico absolutamente espantado com as músicas que tocam no rádio atualmente. CPM 22, FRESNO, NX ZERO; pelo amor de Deus, o que é isso? E quando eu era adolescente, ainda fiquei envergonhado com as letras de músicas que eu havia me arriscado a escrever. Posso ser um cretino e mal educado ao dizer isso, mas esses caras escrevem letras de músicas tão horríveis, que eu, sinceramente, sinto muita vergonha por eles. Mas eles não são burros, estão ganhando dinheiro com isso, sorte a deles! Agora só falta alguém alegar que as letras dos Ramones não eram boas! Sei muito bem o que eles cantavam, e as letras das músicas não são a grande diferença entre as bandas antigas e as atuais. As bandas clássicas sempre foram autênticas na sua revolta, as novas, inventam qualquer coisa para adquirir fama.

    Eu mesmo já quis ter uma banda de rock, era com isso que eu sonhava quando era adolescente. Mas como eu não sabia tocar instrumento algum e, como conhecia poucas pessoas que tocavam, logo desisti disso. E aos dezesseis anos já me achava velho para montar uma banda!

    Aos vinte e três anos, resolvi correr atrás do tempo perdido e, decidi a qualquer custo montar uma banda. Já que não sabia tocar, decidi que eu iria cantar e iria escrever as letras. Por acaso conheci um rapaz que tocava guitarra e não tinha banda. Ele tinha mais ou menos a mesma idade que eu. Gostei das influências dele e do modo dele tocar, decidimos montar a banda juntos. Ele disse que me emprestaria o contra-baixo e talvez nós dois poderíamos nos revezar como vocalistas. Eu entrei em um site de músicos da Internet e saí à procura de pessoas interessadas em tocar punk rock. Achei um cara que tinha o perfil de baterista que eu estava procurando. Liguei para ele, falei sobre a banda que eu estava criando e ele na hora disse que queria participar, apesar de já estar tocando em outras bandas.

    Alguns meses depois fizemos o primeiro ensaio. Havíamos escolhido tocar uma música famosa, com a qual, muitas outras bandas, haviam iniciado suas atividades: Louie Louie. Eu fiquei no contra-baixo; mesmo sem saber tocar este instrumento. Pedro, o guitarrista, havia me ensinado a tocar a música duas semanas antes. Mas a gente também não conhecia a letra da música. Pedro queria que eu cantasse, mas eu desisti. Como poderia cantar, sem saber a letra? Ele então se arriscou a cantar. Tocamos Louie Louie várias vezes e o som até que ficou legal. Foi uma pena não ter gravado aquele ensaio. Depois o Pedro saiu tocando outras músicas, o baterista seguiu acompanhando e, eu no baixo, saí inventando qualquer coisa. Admito que naquele ensaio, eu já não tinha o mesmo entusiasmo com a música que eu tinha na minha adolescência.

    Devido a outros compromissos meus, eu demorei a ligar de volta para eles, para a gente marcar o segundo ensaio. E depois que liguei, o baterista quase nunca estava disponível, pois já tinha algum show marcado com suas outras bandas. Aguardando pelo segundo ensaio, eu segui procurando por letras e cifras de músicas na Internet, e escrevi algumas também. Mas enchi o saco de ficar ligando para o baterista e ouvir ele me dizer que estaria ocupado; então resolvi procurar por outra pessoa interessada e disposta a tocar em uma só banda. Avisei ao guitarrista que faria isso. E como é difícil encontrar alguém disposto a tocar em uma banda de rock só pela diversão! Como é difícil encontrar alguém que só queira tocar rock de verdade!

    Entrei em sites de música, e o que vi lá para mim é decepcionante. Vi um monte de pessoas dispostas a tocar qualquer coisa. Tem gente disposta a tocar heavy metal, samba e música sertaneja. Vão me dizer que são ecléticos? Que amam a música e não se importam com estilos? Eu não acredito! Sinto muito. Não creio que alguém que sonhe em tocar numa banda de hard rock ou punk rock, possa estar feliz tocando música sertaneja!

    É exatamente isto o que eu estou tentando dizer, não há mais nada autêntico. As pessoas fazem qualquer coisa só pelo dinheiro. Quem ouve música sabe observar nos músicos a paixão que eles têm por tocar. E dá para perceber quando alguém está simulando ser um roqueiro de verdade. E é por isso que o rock é um estilo tão especial, pois as músicas sempre foram simples e a paixão sempre foi maior do que a habilidade de tocar um instrumento. Não vou colocar na minha banda um baterista qualquer, interessado em tocar qualquer coisa, só para se dizer músico. Quero alguém que goste do que faz; fazendo bem ou mal.

    Outro dia, em um chat, falei com um rapaz que dizia ser contra-baixista. Ele me falou: quero viver de música, aceito tocar qualquer estilo. Eu respondi a ele: um dia eu também vou viver, mas não como um vendido!

    Esse é o grande problema. Como eles esperam que alguém vá gostar das músicas que eles venham a fazer? As bandas novas não me passam empolgação alguma, não vejo paixão no que eles fazem, não vejo fúria; só vejo falsidade. Eu desprezo as suas letras medíocres e as suas músicas falsas. Quem sou eu para dizer isso? Alguém que não sabe nada de música? Não me importo. Só quero ver e ouvir algo verdadeiro!

    Fico imaginando, o que teria acontecido se um integrante dos Ramones ou dos Sex Pistols tivesse sido convidado para tocar num grupo de música pop?

    Pelo menos já tenho uma resposta para o fato de eu escutar apenas bandas antigas: já não existem mais pessoas autênticas como antigamente!

    Eu não escuto MPB, não gosto, e acho que até esta, se é que algum dia teve o seu valor, já o perdeu totalmente. Caras como Caetano Veloso e Gilberto Gil, foram muito verdadeiros nas músicas que cantaram no início de suas carreiras. Eles cantaram aquilo que o povo todo queria cantar. A indignação deles era verdadeira. Qualquer um que ouvia se identificava. Mas hoje o negócio virou profissão, eles precisam cantar para viver e manter o seu patrimônio, e cantam qualquer coisa. Pelo amor de Deus!

    Quem sou eu para falar de música? Sou alguém viciado em música, e falo porque sou muito cara de pau e me acho no direito de falar daquilo que gosto! A música é uma arte híbrida, várias coisas se unem para formá-la. Nem todos os cantores sabem tocar um instrumento e nem todos os músicos criam, cantam ou escrevem músicas.

    Eu escuto rock porque é a música que me empolga, não escuto este estilo para ouvir música de extraordinária qualidade, com músicos excelentes. Quando eu quero escutar música boa, eu escuto música clássica; essa sim tem compromisso com a qualidade!

    Vou continuar procurando por um baterista que só queira se divertir e tocar o que ele realmente goste, e se por acaso você conhecer alguém, ou quiser se candidatar à vaga, então me avise!


OBSERVAÇÕES SOBRE OS COMENTÁRIOS:
* O texto fala sobre as pessoas serem fiéis ao que acreditam e fazerem o que gostam; não se trata de crítica a estilos musicais.

Provocador
Enviado por Provocador em 22/11/2007
Reeditado em 12/07/2009
Código do texto: T748117

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Sobre o autor
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Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 35 anos
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