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A andorinha


Quando abri a porta do quarto ele estava lá, voando em círculos interligados desenhando nos meus olhos o símbolo do infinito. Quase se chocava nas paredes e no teto com o pé direito baixo. Num primeiro impulso fechei a porta e me detive no lado de fora com o mesmo frenesi de quando assisti “Os pássaros” de Hitchcock... mas era apenas uma andorinha que, distraída, entrou pela fresta de alguma telha e mergulhou no que para ela deveria ser um labirinto. Procurava uma saída. Eu também. O que fazer com uma andorinha voando pela casa? O que fazer com um pássaro se esbaqueando dentro de casa? Lembrei-me do poema de Gullar. Mas não me via à beira da loucura, pelo menos eu não. Pensei nas vésperas, todo dia é véspera. O amanhã, na verdade, nunca acontece até o dia em que acontece, e então: a saída. Todo dia pode ser a véspera. Isso muitas vezes me esbaqueia por dentro e me aprisiona em labirintos estreitos com tetos baixos. O que me resgata são as asas da poesia rompendo esse teto. A andorinha. Eu precisava encontrar uma maneira de entrar no quarto sem que ela se atirasse pela porta se embrenhando pela casa. Ela precisava era do céu, não de outros labirintos. Abri de novo a porta, dessa vez bem devagar, não queria que ela se espantasse comigo da mesma forma com que eu me espantei com ela. Labirintos. Ela estava pousada no alisar acima da janela, a janela fechada e as asas na iminente fuga. Ainda com o frenesi dos pássaros me aproximei lentamente, como se pisasse acima, um pouco mais acima, como se eu pisasse em nuvens, e eu me sentia à superfície do meu corpo, leve como se eu levitasse. Ela não se movia. Por um momento tive a pretensão de pensar que havia conquistado a sua confiança e senti vontade de tê-la nas mãos, mas se isso tivesse acontecido ela viria pousar na minha mão que estava estendida entre ela e a vidraça. Escolhi a vidraça. Abri a janela e no mesmo instante ela se foi. Passou rente aos meus olhos e mal pude perceber o sopro das suas asas. Debruçada no peitoril eu procurava por ela, mas nada via além do céu azul de uma manhã de véspera. Saí da janela e voltei pro quarto. Fui escrever poesia.

Cristina Nunes
Enviado por Cristina Nunes em 23/11/2007
Reeditado em 23/11/2007
Código do texto: T749297

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Sobre a autora
Cristina Nunes
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 60 anos
421 textos (32739 leituras)
9 áudios (1002 audições)
2 e-livros (97 leituras)
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