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CHUVA


Adoro chuva, principalmente quando é feriado, aí é só curtir. Não penses que sou maluca, até sou um pouco, mas a minha loucura ainda está dentro do limite aceitável. Gosto de dias chuvosos sim, o frio é convidativo, nesses dias sentir preguiça é totalmente compreensivo; ficar na cama bem embrulhada escutando o barulho dos pingos da chuva, não pensar em nada. Abrir a janela olhar contemplativa, depois, preparar um chocolate quente, pegar um livro, aquele que ainda não tive tempo de terminar ou ainda nem comecei, e voltar para a cama, segurando de um lado a caneca e de outro o livro, sem pressa, a chuva continua e isso é bom.

Termino a caneca com chocolate, a ponho no chão e folheio o livro, não sem antes cheirá-lo, isso é claro se o livro for novo, aquele cheiro bom é o primeiro contato entre nós, principio a leitura e me entrego totalmente. Sempre foi assim, a chuva e eu no entendemos muito bem, claro que ela lá fora e eu bem protegida dentro de casa, pois, as tentativas de nos encontrarmos, foram um tanto quanto desastrosa; sou fraca, apanhar chuva e adoecer.

Talvez seja por isso que eu me sinta tão culpada por gostar de chuva. Há tantos que moram na rua, onde se protegem da chuva? Enquanto eu fico adorando aquele barulhinho gostoso dos pingos no telhado, eles não têm telhado; enquanto fico na cama macia, eles têm papelão; o lençol quentinho que me envolve, eles não têm. É bem possível que nunca ninguém tenha parado para pensar nisso, os urbanos quase não percebem aqueles excluídos que vivem muito além da margem da sociedade, o espetáculo horroroso de rostos desfigurados, seus olhos muitas vezes parecem revelar que a alma se foi e esqueceu do corpo.

É preciso que acordemos para esse problema sério, mostrar que ainda não nos transformamos em coisa, que ainda temos sentimentos, gritar junto, fazer a nossa parte, cobrar que os governantes façam a deles, se os mendigos não têm título de eleitor, nós temos. Amigo antes de xingar pela chuva ter atrapalhado aquela praia tão aguardada, pense que há situações piores e perceba a sua importância na construção de um mundo melhor.

Quanto a mim vou tentar fazer a minha parte, embora seja pouco acredito que valha a pena, a intenção é boa. Quem sabe daqui algum tempo eu possa curtir meus dias chuvosos sem remorso.
tetê castilho
Enviado por tetê castilho em 23/11/2007
Código do texto: T749395

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Sobre a autora
tetê castilho
Belém - Pará - Brasil, 30 anos
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tetê castilho