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Envelhecer

ENVELHECER

                                                                           Jocenir Barbat Mutti
                                                                            Out/2007


                                                                           
          As estatísticas são inexoráveis. Através delas podemos vislumbrar com certa probabilidade o período em que vamos morrer,  presumindo é claro que não haja um acidente de trajeto. Essa análise do passado, que permite uma previsão do futuro, pode ser muito interessante para quem está começando a vida, para as companhias de seguro, para os idosos que descobriram o caminho das pedras, mas é uma merda para quem já trilhou oitenta por cento do percurso e ainda não descobriu a saída. Incluo-me nestes últimos.
            Não sei até onde é verdade, mas na Bíblia Sagrada encontramos, no livro Gênesis, diversas pessoas que viveram mais de dois centenários. Talvez a despreocupação com a morte os tenha levado a essa condição. Não busco a vida eterna, mas seria uma excelente utopia viver sem pensar na morte.
             Atualmente existem quase cinco bilhões de seres humanos no planeta. Todos terão o mesmo fim. É uma grande  verdade. Chega parecer egoísta não aceitar com naturalidade a morte, considerada um pequeno evento para a maioria que fica, e gigantesca para os inseguros que se despedem antes da hora natural de ir. Digo antes, porque tenho esperança que perto da hora, que só acontece uma vez, pode ser que apareça um milagre e o problema seja resolvido. Ainda bem que, na minha cabeça, depois que passar a linha imaginária acabará tudo. Sem dor, sem obrigação, sem compromisso, sem nada.
                Não consigo encarar com naturalidade que tenhamos que tomar diariamente remédio para pressão, remédio para colesterol, remédio para depressão, remédio para dormir, remédio para artrite, remédio para menopausa, máscara de oxigênio para evitar o ronco dormindo, placas dentárias para evitar mordidas em bochechas flácidas,  meias elástica para melhorar a circulação, remédio para combater o efeito colateral do outro remédio. Antes que alguém se preocupe, eu não tomo todos os remédios acima, mas somando tudo o que tomam  meus amigos, chegamos lá. Tudo isso sem contar aqueles acidentes de trajeto que mencionei acima, que quando surgem arrasam um quarteirão.
         Esqueci de citar, merece destaque um remédio milagroso surgido há pouco tempo que está tornando muitos velhos fogosos!!!
         Quais as causas dessa dificuldade em descobrir uma saída?
         Onde estão as pedras para  descobrirmos o caminho?
         Tenho lido que muitos cientistas, quando atingem a idade do lobo, terminam optando pelo caminho da fé, escolhendo uma religião. Talvez por admitirem sua incompetência para entender a vida, terminam delegando a Deus essa responsabilidade e se juntando aos mortais.
          Tenho observado muitas pessoas fazendo análise, procurando  psicoterapias. Todos tentando resolver seus desejos reprimidos, sejam lá quais são.
Acredito que por trás disso tudo esteja o desejo de ter vivido uma vida digna. Uma vontade de passar para os seus descendentes um bom exemplo. A tentativa de descobrir uma pequena pista de felicidade nessa complexa vida.
          Eu já sabia que não conseguiria responder com clareza as perguntas acima, talvez só Deus consiga, mas escrevendo este pequeno texto me sinto mais aliviado por saber que refleti um pouco e tentei externar as principais dificuldades que enfrento atualmente nessa minha querida vida.
           Vou continuar amando minha família, conservando meus amigos, cultivando outros, rezando na minha igreja, trabalhando enquanto puder no que gosto, fazendo minha musculação, jogando meu tênis, tomando meu bom vinho acompanhado de uma perdiz com polenta. Mas ainda preocupado com o problema.
                   



Jocenir Mutti
Enviado por Jocenir Mutti em 25/11/2007
Código do texto: T751988

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Sobre o autor
Jocenir Mutti
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 72 anos
18 textos (10181 leituras)
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