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A Última Parada

Um dia como outro qualquer... ou não.
A caminho de casa pro trabalho, a bordo do meu ônibus de cada dia, a vida parece normal, seguindo com preguiça a tarefa de nascer o sol, despertar os homens, fazer a roda viva girar... E assim, enquanto aguardava chegar, o veículo alternava partidas e paradas, ora em pontos, ora em semáforos, ora em pequenos engarrafamentos... Ainda sonolento ouvia, um carro de som anunciar a morte de mais um alguém, ou mais um ninguém para os que a vida continuava apenas ali, naquele instante e isso era o bastante.
Agora com ouvidos atentos, tentava identificar quem era esse alguém, esse talvez "anônimo" perdido no vai e vem do frenesi provocado pelos carros as sete da manhã.
Entre ruídos, buzinas, freadas, percebi que a pessoa de quem falava a enorme caixa de som com a voz grave do locutor, era um alguém conhecido. Não chegou a ser um amigo, mas alguém com quem convivi durante grande parte de minha infância. Entendi entre a barulheira e concluía no meu silêncio:
- Domiro morreu!
Era assim que conhecíamos na rua e era assim que gostava de ser chamado o senhor de semblante esquisito e muitas vezes ranzinza, dono de um boteco na minha rua. Seu nome era Clodomiro.
Era chato, mas bom contador de histórias. E isso me deixava preso horas do dia, só pra saber um pouco mais daquelas fantasiosas maluquices de Domiro. Histórias de lobisomem, mula sem cabeça, coisas que criança morre de medo, mas nunca cansa de ouvir.
Tinha três filhos, um dos quais deficiente, motivo de uma paralisia infantil que o deixara sem o movimento das pernas. Lembro-me como se fosse hoje de quanto jogávamos futebol na rua e ele mesmo assim se apresentava pra "chutar" a bola com uma das mãos. Isso nunca mais esqueci.
E depois daquele filme rápido que passava em poucos segundos em minha cabeça, voltava a querer questionar a fragilidade da vida, parecia inútil pensar na paradoxal força da vida e a fragilidade que ela mesma entregava.
Mesmo depois de alguns anos sem o ver, senti pela sua morte. Havia se mudado com família pra um bairro pobre, vizinho de onde morei e por outras bocas soube que havia se separado da mulher.
Não bastasse às poucas desgraças da vida de um pobre, ficou doente, fragilizado, enfraquecido, esquecido.
Na minha correria sem fim, não tinha mais notícias deles. Vez ou outra me encontrava com um dos filhos, Claudinho, aquele mesmo dos dribles e chutes com as mãos. Estava numa cadeira de rodas, de terno e gravata, trabalhava numa rádio e dizia empolgado querer ser advogado. Sua força me fazia entender que meus problemas eram bem menores que eu pensava.
Enquanto tudo voltava à mente em relâmpagos claros, o ônibus que me carregava, acompanhava o carro de som como num cortejo... Senti tristeza e um pouco de saudade.
Quando tinha lá meus dez anos, quando já tinha aprendido a contar dinheiro, exercia minhas compras de doces e balas naquela vendinha ao lado de casa. Via-o abrir e fechar a venda todos os dias, assim quando saía pra escola e a noite antes de dormir.
O carro dobrou a esquina e o ônibus seguiu religioso seu destino.
Segui calado me perguntando, porque não entendemos a morte?
Pouco depois a resposta estava na minha frente. Morte não é o ponto final, é a última parada.

Tiago Alves
Enviado por Tiago Alves em 23/11/2005
Reeditado em 02/12/2005
Código do texto: T75352
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Sobre o autor
Tiago Alves
Macaé - Rio de Janeiro - Brasil, 41 anos
15 textos (1292 leituras)
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Tiago Alves