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UM SACI DEBAIXO DO COLCHÃO

        Desde meus primeiros anos de menina, entre outras tarefas de casa a fazer, tinha que arrumar minha cama. Houve lá suas vantagens. Debaixo do meu colchão, escondia livros “condenados” e revistas de fotonovelas, quando já era mais crescidinha. Minha mãe não notava.
        O sono da irmã, cinco anos mais nova, chegava rápido. Ainda bem. Então, eu acendia a luz do quarto, esticava um pedaço de pano no chão para tapar a greta debaixo da porta, para que ninguém visse claridade e fazia minhas leituras “proibidas”, até tarde da noite.
Pelos meus cálculos, creio que tinha de oito para nove anos, quando ganhei de presente o livro “O saci”. A mãe foi logo dizendo que era livro condenado. O vigário da cidade e a professora de catecismo haviam proibido leitura de livros de Monteiro Lobato. Diziam que não era leitura para católicos, que Lobato era comunista. Ser comunista, naquele tempo, acho que era mais grave do que ser traficante de drogas nos dias de hoje. Até hoje não entendo o porquê. Ou entendo... Essas coisas de domínio estrangeiro...
        Li “O saci” em poucas horas de umas poucas noites. Tinha pressa pra ver minha irmã pegar no sono, pra que eu pudesse tirar o livro de baixo do colchão. E, nem imaginam! Quando cheguei na última página, tive que ler a história de novo. Queria encontrar alguma coisa, algum sinal, que me fizesse entender o que era o tal do comunismo.  Passei mais algumas horas de algumas noites, enleada com o tal do Saci-Pererê, capetinha negro, de uma perna só, pitinho aceso na boca e carapuça vermelha na cabeça, que vivia solto pelo mundo, preparando reinações. Reinações? Pensei que eram coisas a ver com castelos, reis, príncipes e princesas. Porém, a história não falava nada disso.
        Fiquei curiosa quando o Pedrinho procurou o negro tio Barnabé, pra saber se saci existia de verdade.  Lá no “Sítio do pica-pau amarelo”, onde acontecia a história, diziam que o tio Barnabé já havia visto o tal moleque mais de uma vez, ainda no tempo da escravidão. Gostei de saber do segredo da carapuça vermelha e fiquei surpresa com o que ele chamava de reinações. Reinações de saci eram coisas como quebrar pontas de agulhas, azedar o leite das panelas, esconder tesouras de cortar unhas e outros objetos miúdos, embaraçar novelos de lã, daqueles que a dona Benta usava para fazer tricô. Ah, moscas que surgiam na sopa, feijão que queimava na panela, ninhada inteira de pintinhos que gorava, prego caído no chão virado de ponta pra riba e até mesmo os redemoinhos, coisas da natureza, eram também reinações atribuídas ao saci. Tudo que acontecia de desagradável nas casas, nas roças, se não era maldade das grandes, era por culpa do saci.
        Divertido, quando tio Barnabé contou de uma vez que ele viu um saci. Era de noite. Ele se preparava pra arrebentar uns milhos de pipoca pra encher a barriga antes de dormir, quando ouviu um barulhinho esquisito. Pensou logo que podia ser um desses moleques. Então, encolheu-se no seu canto, fingiu que estava dormindo e nessa hora o diabinho “começou a reinar na casa”.O termo “reinar”, com o sentido dado pelo Barnabé, era para mim uma graça. Ele contou, que deu de ouvidos quando o saci remexia na panela do milho. Roncando alto em seu sono de mentira, foi logo pensando “adeus pipoca”. Era que saci “rezava” o milho de pipoca na panela e tudo virava piruá. E num é que o milho todo virou piruá mesmo? Nessa noite ele teve de dormir com fome.
        Bom, não vou contar mais nada, que essa história não é minha. É do maior escritor de livros infantis que já existiu no Brasil até hoje. Eu só posso dizer que, no meu tempo de menina, fiquei por entender, a razão pela qual, livro de Monteiro Lobato era “livro condenado”, porque ele era comunista. E diziam que comunista até comia criancinha... Vejam bem! Como é que alguém, que escrevia histórias tão engraçadas, tão divertidas, com tanta personagem interessante como Tia Nastácia, Narizinho, Cuca, Pedrinho, Emília, Visconde e outros, pra criança de todo tamanho e até gente grande ler, gostar e ficar feliz, podia ser um homem capaz de comer criança? Ficava pensando.  O que seriam  reinações de comunistas?
Ainda bem. Essa época passou, os livros de Monteiro Lobato podem ser encontrados nas livrarias desta cidade, na Biblioteca Pública e até nas bibliotecas das escolas. E a meninada e até mesmo gente grande, que na sua infância foi proibida de ler Lobato, pode ter seus momentos de encantamento ao ler as proezas dos personagens do “Sítio do pica-pau amarelo”. Ninguém mais precisa ter um saci debaixo do colchão.

 






 


Terezinha Pereira
Enviado por Terezinha Pereira em 27/11/2007
Código do texto: T755435
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Sobre a autora
Terezinha Pereira
Pará de Minas - Minas Gerais - Brasil, 68 anos
124 textos (55548 leituras)
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