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ALDÉRICO, O POLIGLOTA.

Foi-se o tempo em que a função de atender detentos colocava-me diante de pessoas inusitadas.

 Lembro-me de Aldérico, o poliglota.

Era alto e meio torto. Sua cabeça e seu pescoço pendiam para um lado só, não sei se para o esquerdo ou direito, não importa. Era como se estivesse submetido a uma lei de gravidade incomum. Aliás, tudo em Aldérico me parecia incomum. Seu olho direito, agora sim posso afirmar ser o direito, transmitia uma certa apatia, tão diferente da expressividade vivaz de seu olho esquerdo. Cheguei a supor que fosse cego daquele olho, mas ele afirmava enxergar perfeitamente com os dois olhos.

Todos no presídio, funcionários e detentos, suspeitavam da lucidez de Aldérico. Era tido como louco, bem sabia, e retrucava dizendo ser o mais são entre eles.

 Como era poliglota, costumava, no meio de uma conversa, falar frases inteiras em alemão ou em italiano ou em qualquer outro idioma, independente de quem fosse seu interlocutor. Deixavam-lhe falando sozinho, ao que acabou habituando-se, e então o chamavam de biruta.

Ninguém sabia o motivo da prisão de Aldérico, nem ele próprio, nem eu, nem os prontuários, onde não existia. Mas, sobre sua vida pregressa gostava de falar.

 Fora criado em uma colônia alemã em Santa Catarina até os dez anos. Nesta idade o mandaram para um seminário em São Leopoldo. Daí ter convivido com alemães, italianos e alguns franceses. Queria ser padre, mas desistiu quando conheceu Leonora.

 Deus algum a merece, dizia ele, e em seguida fazia o nome do pai rapidamente, como se tivesse cometido algum pecado ou como se quisesse livrar-se de algum. Ao fazer o gesto em cruz, balbuciava palavras em latim.

Casou-se com Leonora e tiveram dois filhos. Ambos morreram atropelados por um caminhão. Leonora morreu em seguida, de desgosto. E Aldérico ficou torto.

 Após a tragédia deixou seu trabalho de lavrador e montou uma casa noturna. Ao falar sobre esta aventura seu olho esquerdo brilha de peraltice, mas o direito se apaga em uma tristeza profunda.

Seu olho esquerdo contava feliz sobre as moçoilas do Rio de Janeiro que vieram atuar em sua casa noturna que muito prosperou.

Para mantê-las,fora necessário aumentar todos os preços da “Lua da Praça”, nome de batismo da casa.

 Uma lágrima escorre do outro olho de Aldérico.

 Neste momento pronuncia palavras incompreensíveis, mas não o deixo só. Faz de novo o nome do pai e pede perdão. Perdão por não ter permitido a entrada de pobres operários na “Lua da Praça”, após sua prosperidade.

Seu olho direito conclui ter sido este o motivo de sua prisão. Seu olho esquerdo pisca e me diz não.

Meus dois olhos lhe perguntam: Aldérico, o que é a loucura?



Rocio Novaes
Enviado por Rocio Novaes em 23/03/2005
Código do texto: T7563
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Sobre a autora
Rocio Novaes
Curitiba - Paraná - Brasil
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