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O TORCEDOR

      Sou torcedor do Sport Club Internacional, campeão do mundo, aguardando sucessor. Como Sadi, lateral esquerdo nos anos 60 e 70 e que também jogou na seleção brasileira, gosto de chamar o Beira Rio de Catedral. Qualquer pessoa que me conhece sabe onde me encontrar em dia de jogo do Inter, quando estou em Porto Alegre.

      A torcida que todos vêem na televisão, em dias de jogos do Inter, é a Camisa 12, da qual nunca fiz parte, não por ser esta torcida, mas porque nunca fiz parte de qualquer organizada. Sou um torcedor como muitos. Contudo, para quem vai ao estádio, o jogo é o motivo e a torcida, não raramente, o espetáculo.

      No estádio, o torcedor pode ser tão poderoso como jamais se imaginaria em outro local. Explico. Já imaginou você fazer setenta mil pessoas fazendo o que você quer? Eu vi. Certa tarde estava ao meu lado um jovem, o estádio lotado, calor, tensão, emoção, dia de jogo importante, anos 90. A torcida, depois de alguns cantos e gritos de guerra, silenciou por algum tempo quando o jovem resolveu fazer uma ola. Gritou para os da volta e levantou os braços, não mais que cinco ou seis levantaram. Não se intimidou, gritou mais alto, chamou a arquibancada para o evento e levantou os braços, foi acompanhado por uns 30. Imediatamente convidou de novo e em alguns segundos o estádio inteiro fazia a ola que ele queria.

      Torcedores apaixonados por time são muitos. Torcedores apaixonados por jogadores, não são poucos.

      Conheci um torcedor que era completamente apaixonado pelo Márcio Santos, zagueiro do Internacional no início dos anos 90, foi campeão do mundo pela seleção em 1994. O problema do torcedor é que havia se apaixonado de ouvir falar. Tenho certeza que sabia que era zagueiro e mulato ou negro, dependendo do observador. Parecia estar pela primeira vez no estádio. Sentou ao meu lado na arquibancada.

      Márcio Santos tinha como parceiro de zaga Célio Silva, na lateral esquerda, Daniel e de centromédio, Simão, todos negros. O time entrou em campo e, de longe, oito jogadores aparentavam ser negros. Bola pra cá, bola pra lá, alguém fazia uma jogada interessante e o torcedor ao meu lado:
      - Como joga este Márcio Santos!

      Para mim, Célio Silva jogava mais. Márcio Santos fez uma firula, entregou o ouro. O centroavante entrou livre na área quando, com grande recuperação, Célio Silva conseguiu chegar junto e evitar o gol. O torcedor exultava:
      - Como joga este Márcio Santos!!!!

      Gosto de ir ao jogo, sozinho, e não costumo ficar de conversa com quem não conheço. Por alguns instantes tive vontade de esclarecer, resolvi deixar.

      O adversário iniciava um contra-ataque quando um na zaga antecipou e, do jeito que deu, mandou um balão na direção da ponta esquerda. A bola encontrou Daniel que cruzou na área e Simão de cabeça, gooooool. O torcedor ao meu lado, em êxtase:
      - Como joga este Márcio Santos!!!!!!!!!!!!!

      Não resisti. Quando ele se acalmou observei:
      - O gol foi do Simão.
      - E o cruzamento? Disse ele.
      - Do Daniel.
      O torcedor, cheio de orgulho, me deixou sem palavras.
      - E o que é que tu achou ...
      ...do lançamento do Márcio Santos!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Marco Antônio Canto
Enviado por Marco Antônio Canto em 29/11/2007
Reeditado em 10/03/2008
Código do texto: T757765
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Marco Antônio Canto
Hulha Negra - Rio Grande do Sul - Brasil, 58 anos
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Marco Antônio Canto