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A MERCEARIA DO SEU ANASTÁCIO

                                   
                        Certos cheiros nos trazem boas recordações que nos arremetem até a nossa infância, nos prazeres de moleque
imberbe e sem nenhuma responsabilidade. Apenas a diversão como meta estabelecida. Lembrei-me do meu avô, criador de gado leiteiro e de sua mercearia que eu ajudava também a tomar conta. E esse tempo perdido de odores um tanto esquecidos me vieram à tona na bodega do seu Anastácio, aqui perto da empresa, mais precisamente no local onde ficam confinados os pães e bolos.
                            Seu Anastácio, sujeito baixinho, atarracado de fisionomia um tanto fechada parece estar sempre com pressa e desconfiado de todos e de tudo que o cerca. Sempre com um olho no peixe e outro no gato. Dizem que papel de enrolar prego tem mais sensibilidade que este "bodegueiro" sem alma. Mas apesar dessa cara de poucos amigos tem uma boa clientela. Talvez implicância da concorrência... que se faz presente do outro lado da parede do seu estabelecimento, na figura do seu irmão que também é comerciante. Já não se falam há vários anos... sem uma razão aparente. Vá saber!
                             Em várias de minhas andanças em tão aconchegante local, de qualificação ISO qualquer coisa, observei alguns casos pitorescos. Enquanto tomava meu nescau com uma fatia de bolo vi e não acreditei quando seu Anastácio tranqüilamente; ouvindo ao fundo seu canário belga, trouxe uma lata daquelas de baygon e pulverizou todos os ovos expostos à venda para matar as baratinhas que estavam a lhe tirar a paciência e lhe roubar um pouco do juízo. Ele olhou prá mim e com a maior naturalidade do mundo disse:
                            - Não aguento mais estas francesinhas.
                            Embora não soubesse nada da Queda da Bastilha ou de Napoleão Bonaparte tinha decretado morte aos franceses. Na realidade, às francesas... era como se referia as baratinhas pequeninas, quase que imortais e de poder de reprodução surpreendente e inimaginável. O problema é que além de liquidar com as baratas estava querendo também se livrar de uma parte dos clientes que gostam de um disco voador no prato ou no sanduíche. Noutras palavras, matar o boi para acabar com o carrapato. Há quem diga que teve gente que ficou bêbada depois de comer um ovo comprado lá. Isso prá não dizer drogado... imagine comer ovo com baygon.
                            Outro dia cheguei faminto e doido para comer uma fatia de bolo. O danado estava lá... quentinho e à espera de uma faca para cortá-lo e dividi-lo com os aficcionados. Seu Anastácio vendo da minha necessidade foi buscar a faca de mil uma utilidades lá nos fundos da bodega(acho que estava cortando fumo); a faca estava espetada em um cepo. Lavar as mãos nem pensar... totalmente fora de cogitação. Pegou no bolo sem nenhuma cerimônia e começou a cortar... Fatia vai, fatia vem e eu olhando firme para poder pegar a última, depois da volta inteira na guloseima, pois nessa ele ainda não tinha colocado a mão cheia de coliformes fecais e mais algumas bactérias provenientes do dinheiro, do nariz...etc. Quando o serviço estava findando meti a mão rápido e quase perco um dos dedos na lâmina afiada, mas consegui retirar a fatia quase intacta. Bactéria zero.
                             A tarde chegou e o desejo de tomar um cafezinho se fez presente. Um pãozinho com queijo seria "fandárdigo", mas onde comprar estes petiscos... nem precisou pensar muito. Dirigi-me a mercearia mais uma vez. O pão estava ensacado, neste pelo menos o danado do velho ainda não tinha colocado a mão. Olhei o queijo e este já estava cortado. Lembrei da faca... da falta d’água... do pano úmido e imundo usado para limpezas mais rápidas. Nossa... lembrei-me: o café estava bem quentinho lá na empresa... um cheirinho no ar. Huummmm...
                              - 500 gramas de queijo. Pedi como quê... num impulso.
                              Olhei discretamente para o pedaço de queijo. Tinha uma mancha escura na lateral do último corte. A faca foi limpa por ali, certamente. Pensei em desistir. O café quentinho.... maldito desejo. O microondas mata qualquer bactéria... afirmei para mim mesmo em meus devaneios de faminto. Prá ser sincero não sei onde ouvi isso. Mas seria a salvação da merenda naquela tarde. Peguei a faca com destreza e aliviei o sujo do queijo. Ainda fatiei a iguaria. Paguei e sai rápido dali com uma incrível crise de amnésia.
                              Todos os colegas de trabalho já me esperavam na sala destinada ao lanche. O queijo foi para o microondas junto com o pão. O sanduiche foi unanimidade, estava uma delícia e ainda me perguntarm que tipo de queijo era aquele. Respondi rápido:
                              - Não sei... não me lembro.
                                                                                           

José de Aragão
Enviado por José de Aragão em 02/12/2007
Reeditado em 02/12/2007
Código do texto: T761774

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Sobre o autor
José de Aragão
Fortaleza - Ceará - Brasil, 53 anos
36 textos (2002 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 19/08/17 23:26)