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Além das Cavernas

Não gosto de ideais. Não é que o ideal não seja real, afinal, o que é "real" senão uma palavra com uma significação? Não gosto do ideal por ele ser ideal, não irreal. Não gosto do ideal porque pelo fato dele ser ideal, eu não posso sentir, tocar, cheirar ou ver, pelo menos não com meus sentidos, e sentidos são o que realmente me interessam.

Idéias são coisas boas e muito interessantes. Lembro-me da alegoria da caverna de Platão.

O Mundo sensível é como uma caverna em que os homens se encontram acorrentados, assim, só vêem paredes escuras. Atrás deles há uma fogueira cuja luz projeta sombras escuras na parede. A realidade para esses homens são as sombras escuras. Um dia um deles consegue escapar e depois da escuridao provocada pela luz do sol, os olhos acostumam-se com a claridade e vêm a verdadeira e bela realidade: o mundo das “idéias”. Voltando à caverna para comunicar aos companheiros de caverna a sua descoberta é por eles ridicularizado e assassinado.

Quem deseja ver essa alegoria numa versão pós-moderna e um pouquinho modificada é só assitir a trilogia ‘Matrix’.

Não quero menosprezar ou contrariar Platão. Primeiro porque seria uma pretensão da qual não sou digno, e segundo porque muitos já fizeram isso, estando Nietzsche e Sartre entre os que a meu ver foram mais longe. Mas não quero entrar neste dilema da Filosofia. Estou entre o “cá” e o “lá” e já que citei Nietzsche vale dizer que segundo ele a maneira mais fácil de corromper alguém é ensinando-o a respeitar mais os que pensam igual a ele do que os que pensam diferente.

Eu só quero fugir do Ideal.

Quero subir num abieiro e comer o abiu mais doce que encontrar. Quero deitar numa rede, se possível, lá na ‘colônia’ do meu avô e ouvir a mata, e bem baixinho um cd do Belchior. Quero tomar banho nu, no ‘garapezinho’ lá de baixo. Mas isso é só idéia ainda, pelo menos agora, então eu sinto o que só posso sentir aqui-agora, e tem tanta coisa pra sentir...

Quando falo “sentir” por favor não entendam somente como se eu estivesse falando dos cinco sentidos externos, pois também me refiro aos sentidos internos que captam sentimentos, emoções.

É que o mundo anda preocupado demais com idéias. Eu não digo que isso seja desnecessário, mas é que nos parecemos um pêndulo que só se move de um extremo ao outro e nunca descançamos no meio. Saímos da “fé cega faca amolada” à descrença que não crê na vida, vamos da supervalorização da razao à ilusão, da ofensa ao politicamente correto, da destruição à desconstrução, do ‘só-aqui’ ao ‘só-lá’, do mundo das Idéias ao mundo dos sentidos sem nunca encontrar o equilíbrio... Só às vezes, de passagem.

E é no Equilíbrio que está a felicidade.

O mundo anda muito preocupado com o Ideal. Eu me arrisco a dizer que o Cristianismo tem muita culpa nisso, mas não é só ele, mas todas as religiões. Eu não menosprezaria as religiões, em plena Pós-Modernidade é até inocência dizer que as religiões deveriam (ou vão) acabar. Paul Tilich “diz” que a Religião é um copo e a cultura um conteúdo, entendo, é só ligar a tv, tudo (até o que antes não era – não era?) é religiao. Desde o futebol aos partidos políticos, tudo está vestido com capa religiosa. Quando o assunto é vida fala-se muito em coisas ideais e por isso o Ideal nunca chega. Estamos muito ocupados com o céu, seja ele eclesiástico, filosófico, sociológico ou psicológico, seja que tipo de ‘céu’ seja, é dele que egoísticamente estamos nos ocupando.

Tudo está muito Ideal. Será que você me entende?

Por via das dúvidas contarei uma alegoria.

O mundo Ideal é como uma caverna em que os homens se encontram acorrentados. Eles estão de olhos fechados e imaginam paredes escuras. Imaginam também uma fogueira cuja luz projeta sombrias sombras escuras na parede. A realidade para esses homens são as sombras escuras e eles imaginam uma fogueira – o inferno – onde serão lançados os que abrirem os olhos.

Um dia um deles abre os olhos e vê que não estão em nenhuma caverna, tampouco acorrentados. Não havia fogueira alguma, nem paredes, tampouco sombras. Tudo ao seu redor era lindo, até as pessoas que permaneciam de olhos fechados sofrendo ao seu redor.

O homem ficou encantado com o mundo. Se apaixonou. Tudo era seriamente engraçado. Então ele foi aos outros para tentar avisá-los. Ei abram os olhos! Não há Inferno! O que vocês vivem é que é o inferno! Mas eles o ridicularizavam, chamavam de mentiroso e diziam que em breve ele seria levado para o inferno. Tentavam até assassiná-lo mas não podiam pois seus olhos estavam fechados.

Você entendeu?

Não gosto do Ideal porque ele é ideal. O mundo pra se viver é este aqui, aqui é o ‘além’. Deus não é ideal. Quem disse isso? Sim eu sei, religiosos e ateus, mas eles estão errados, estão de olhos fechados para não ver Deus na face do outro, pra não ver que “aquilo que é possível conhecer de Deus foi manifestado aos homens, e foi o próprio Deus quem o manifestou. De fato, desde a criação do mundo, as perfeições invisíveis de Deus, tais como o seu poder eterno, a sua divindade, podem ser contempladas através da inteligência, nas obras que ele realizou”, como nos disse São Paulo.

“O inferno são os outros”, disse Sartre corretamente e de uma forma especial, eu penso também que o céu são os outros, depende dos olhos de quem vê.

No mais... Não estou interessado em nenhuma ideología, nem mesmo estou tão interessado assim pelo céu, ou pelo inferno, coisas de um "lá". Amar e mudar as coisas – aqui e agora – me interessa mais.

Abraços.
Inté!
Éverton Vidal Azevedo
Enviado por Éverton Vidal Azevedo em 02/12/2007
Código do texto: T762038

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Sobre o autor
Éverton Vidal Azevedo
Bolívia, 34 anos
40 textos (2349 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 22/08/17 06:46)
Éverton Vidal Azevedo