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Promessa de virginiano

Promessa de virginiano

Jocenir Barbat Mutti/Dez 07

Uma famosa astróloga calculou que o sol e o ascendente de Justino Leal estavam em virgem na data, hora e local de seu nascimento. Estávamos diante de um homem duplamente virginiano. Talvez esse traço de sua personalidade o tenha encaminhado a gerente de um banco espanhol. A Alice, sua mulher, valorizava essa característica do Justino, e talvez por achá-lo quase perfeito, não aceitava furos nos seus planos conjuntos. Isso explicava em parte o casal estar beirando os quarenta sem filhos. Não queriam correr o risco de gerar um rebento que não se assemelhasse a Deus.
Um mês após o retorno do casal de uma viagem à serra, o carteiro tocou a campainha da casa dos Leal. Justino sentiu algo estranho no ar, pois para receber três envelopes teria de assinar e fornecer o número de sua identidade. Constatou então que se tratava de multas referentes àquela viagem, mas como viu que lhe fora dado um prazo para recorrer, ficou matutando..... Foi à fonte das multas, para analisar onde eles tinham errado. Lógico, na sua cabeça não havia a mínima possibilidade que o deslize fosse seu. O atendente o encaminhou ao Sr. Aníbal. Era o chefe da instalação e remanejo de todos os pardais do Estado. Por uma hora inteira o Justino ouviu as explicações do Aníbal. Inconformado, voltou para casa e junto com a Alice arquitetou um plano maquiavélico. Iniciou fazendo a seguinte proposta para o Aníbal, por e-mail: “ No primeiro sábado do próximo mês vou subir a serra e gostaria que me acompanhasse. O senhor irá dirigindo meu carro, eu sentarei no banco do carona e a minha esposa no banco de trás. Como o senhor conhece a posição atualizada de todos os pardais, não vai correr risco nenhum de ser multado! Uma vez completada a viagem de ida e volta, eu lhe pagarei mil reais pelo seu trabalho. Lógico que, se houver multas, o senhor vai ter que arcar com elas e ainda retirar as três que tenho pendentes. Se no final da viagem tudo correr dentro dos trinques, eu pagarei em dobro o valor contratado.”
O Aníbal, quando recebeu aquele e-mail ficou surpreso, mas também não viu nada de imoral na proposta do Justino. Terminou aceitando.
Chegou o dia da viagem. Aníbal trouxe na mala um laptop, caso fosse necessário confirmar a posição dos pardais e as velocidades determinadas, um binóculo de longo alcance, um anti-radar móvel e um posicionador de pardais que emitia um sinal de alerta.
Justino combinou com Alice que na viagem iriam adotar o “fermer la bouche”, para evitar qualquer reclamação do motorista.
Partiram por uma estrada federal, dobraram à direita e entraram na famosa via dos pardais. O Aníbal, com um ar de senhor da situação e atento ao marcador de quilômetros, avisou:
- Daqui a duzentos metros teremos um pardal de setenta quilômetros por hora.
O Justino só lhe lançava algumas olhadelas de soslaio. Dito e feito, lá estava o pardal. Mais uns quilômetros e o Aníbal sussurrou:
- Esta placa de quarenta na minha esquerda, eu já tinha mandado retirá-la.
O próximo pardal, Aníbal sabia que era de oitenta, mas não havia nenhuma placa de sinalização.  Justino começou a gostar do que estava acontecendo, o motorista começava a provar de seu próprio veneno... No exato momento em que estavam passando pelo pardal, Alice alertou:
- O flash disparou!
Aníbal parou o carro para examinar a quilometragem certa do lugar da estrada em que se encontravam e verificar no computador a velocidade daquele pardal. Não podia estar acontecendo aquilo. Faltava placa de sinalização e o computador estava com uma informação diferente do pardal. Nervoso, seguiu viagem e resolveu tirar a limpo aquele incidente, telefonando para o plantão do Detran. Alice se manifestou mais uma vez:
- Aquele guarda viu e anotou o senhor telefonando!
Coitado do Aníbal, teve que retirar as três multas por excesso de velocidade do Justino, pagar as suas três multas e mais uma por falar no celular dirigindo. Que vergonha!!
O virginiano  cumpriu a promessa que fez, sob o testemunho de sua mulher Alice:
- Quem ousasse multar Justino Leal iria pagar caro!
Jocenir Mutti
Enviado por Jocenir Mutti em 04/12/2007
Código do texto: T765106

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Sobre o autor
Jocenir Mutti
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 72 anos
18 textos (10155 leituras)
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