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Borrachudo

      “Ilhabela é o único município-arquipélago marinho brasileiro e destaca-se por possuir 92% de Mata Atlântica preservada. Fazemos passeios de jipe pela Mata Atlântica”

      A informação perdia-se no panfleto sob os pés de alguns caiçaras. Com algum esforço, consegui ler à distância enquanto sentia a balsa descolar sua lateral do porto de São Sebastião. Quinze minutos separavam meu instinto turístico da ilha que ilustrava o folheto publicitário. A chance de desfrutar o conceito “sol, mar e água fresca” finalmente chegara. Nada atrapalharia o otimismo eufórico daquele final de semana. Bom, quase nada.

      Os poucos minutos asfaltados entre a saída do estacionamento flutuante e a pousada escolhida desenhavam uma curiosa paisagem. Homens, mulheres, velhos, cachorros, não importava. Todos mantinham o hábito – ou cacoete, quem sabe – de alisarem rapidamente os braços e pernas, como se expulsassem algum espírito mau da pele bronzeada. Estacionei o carro e deixei as especulações de canto. Descobriria mais tarde que nenhuma entidade sobrenatural merecia tal comparação.

      Cinco minutos depois, as malas já enfeitavam o chão quente do quarto. Enquanto minha namorada ajustava a câmera, eu esperava ansioso o inesquecível passeio de jipe pela Mata Atlântica. A da foto no panfleto? Essa mesma. Três horas sacolejantes em um Toyota adaptado foram necessárias para subir os quinze quilômetros de mato que cortavam a ilha. Qual destino merecia este sacrifício? A famosa Praia de Castelhanos. Recomendação empolgada de um amigo.

      Água cristalina, areia branca, vento equilibrado. O Sol estendia os raios como se convidasse meu corpo a aquecer sua carne em fogo baixo. Antes que tirasse os chinelos percebi algumas marcas vermelhas enfeitando meus pés. “Borrachudo”, disse cansada uma senhora de calça jeans e tênis na areia. Ainda sem entender o que levaria alguém a suar as dobras com aquelas roupas, percebi outra mancha. E outra, e outra, e outra.

      Permanecemos naquela praia por quatro horas. Tempo suficiente para que meu corpo ficasse tomado por marcas bizarras. Algumas se atropelavam no desenho da canela e formavam caroços distorcidos. Outras, finalizavam seu objetivo sob a fúria das minhas unhas. Todas coçavam. E muito.

      Turistas aleatórios pareciam conhecer os padrões de ataque dos borrachudos e se sentiam à vontade para divulgar suas curiosidades. “Eles só vivem um dia”, “só as fêmeas atacam”, “onde tiver um borrachudo, tem água limpa”, “são atraídos por roupa escura”. Que ótimo, eu estava mesmo de camiseta preta. Constrangido com os olhares de “coitado, que moleque azarado”, pensei em dizer que estava de luto. Infelizmente, nenhuma piada serviria de consolo. Menos ainda uma sem-graça. Esperei as portas abrirem e o motor tossir. Chegara a hora de voltar ao jipe.

      Entre coceiras frenéticas, fomos despejados de volta às nossas respectivas pousadas. Meu humor – ou melhor, a falta dele – era evidente. A recepcionista desviou os olhos lentos para meu corpo tricotado por picadas e suspirou sem espanto “hummm... borrachudo...” Outros que cruzavam meu caminho divertiam-se com meu pânico. “Você acha que tá doendo agora, é? Você vai ver amanhã!”

      Preocupado com as previsões catastróficas, meu instinto hipocondríaco fez com que corresse à farmácia mais próxima. Antes que pedisse algum tratamento emergencial, fui surpreendido por uma caixa de remédios. “Toma um comprimido agora. Só assim seu pé não vai amanhecer parecendo uma jaca”, antecipou-se a atendente com um sorriso falso. Agradeci e tomei dois de uma só vez. Ou três, não me lembro.

      De volta a São Paulo me programei para cruzar com o amigo que havia recomendado a viagem. Entre tapinhas nas costas e conversas descartáveis, ele analisou cada bloco avermelhado que ilustrava meu corpo. Apertou os lábios com força e disse, com um característico sorriso filho-da-puta:

      - Não falei pra você que a Praia de Castelhanos seria uma aventura “marcante”?

      Acompanhei a gargalhada do meu ex-amigo se perder no tumulto da rua, contando lentamente até dez. Cocei algumas bolhas na nuca com raiva. Bancar o inocente, aos 28 anos? Aquilo só podia ser o fim da picada.
Felipe Valério
Enviado por Felipe Valério em 06/12/2007
Reeditado em 27/12/2007
Código do texto: T766988

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Sobre o autor
Felipe Valério
São Paulo - São Paulo - Brasil, 38 anos
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Felipe Valério