ULTIMO OLHAR

Sempre fui amigo de olhar a cidade do alto, de me perder nas suas pulsações e nos seus sons. De tentar adivinhar-lhe os ritmos.

Hoje, um ventinho prenunciador de chuva fazia-me semicerrar os olhos, e lacrimejar um pouco. Com isso, as luzinhas da cidade ganharam novos brilhos, a cidade nova beleza, e o momento contemplativo transformou-se num outro, intensamente poético e especial, que estremeceu os meus sentidos.

Nessas luzes e nesses brilhos, extasiei o menino que descobri em mim, sem querer, nem esperar, deixando os seus olhos de criança sobreporem-se aos meus, e verem tudo o que eu via, mas numa profundidade de detalhes que, francamente, já tinha esquecido.

E nesses detalhes, encontrei memórias de feitos e de conversas, de lugares e vontades, de problemas e de soluções, que me colocaram num estado de espírito propenso a avaliar-me, e ao que vivi, nestes últimos tempos.

E fiquei contente, ao descobrir que fiz muito, não apenas profissionalmente. Retomei sonhos antigos, e o violão. Encontrei um tempo para mim, num espaço psicológico que reclamei à inação e à preguiça. Dei-me presentes, e fiz grandes passeios de moto, em trilhas lindas. Voltei a montar, e rejuvenesci um século nas alegrias únicas do galope solto. Retomei a escrita como atividade regular, planejada, não mais apenas como um ato de amor esporádico, rompendo assim um adiamento de muitos anos. Parei de fumar.

Fiquei mais contente ainda ao sentir a presença de tanta gente na minha vida, que sempre foi um pouco agitada demais, e demasiado espraiada por esse mundo, para permitir a proximidade dos outros. Fiz amigos, compadrios, colegas. Toquei sensibilidades. Fui tocado por outras. Vivi dramas sofridos e colhi muitas alegrias. Ajudei no que podia, sempre que pude ver que podia. Aprendi que gosto de pessoas. De gente, talvez nem tanto.

Escutei muito. Falei ainda mais. Mais do que devia, por vezes. Muito menos do que quereria, outras tantas, cedendo às pressões da prudência ou da necessidade, ou honrando pactos de lealdade implícita. Escutei segredos. Encontrei muito de mim, que andava escondido.Nunca, deliberadamente, machuquei ninguém.

Hoje, no alto do morro, de lá olhando a cidade através das lágrimas nos olhos desse menino insuspeitado que encontrei, perguntei-me bastantes vezes se era apenas o vento que as provocava. Mas creio que não procurava respostas nas luzinhas da cidade.

Antes de entrar no carro, e vir embora para casa registrar o último olhar que lancei sobre este ano que termina, não resisti – e pulei de pés juntos numa poça de água da chuva que já trazia debaixo de olho, e que me aguardava tranquilamente refletindo núvens...

Dezembro, em adeus a 2007