DESABAFO

 

 

O tema do desafio de escrita do mês de novembro, selecionado por um grupo de pessoas a procurar nas letras um alento foi o tão decantado, o tão explorado, a tão cobiçada razão de viver. Como estou em período de bloqueio criativo, tenho seguido conselhos e procurado ler, pesquisar e me inteirar sobre o assunto. Confesso estar sendo inútil.

 

É interessante como a gente procura e procura algo, sendo que o mesmo está diante de nossos olhos e passa despercebido. As pessoas são assim; buscam em terceiros ou lugares distantes aquilo que não se tem ou o que se quer negar, o que não se quer ver. A resposta está bem próxima. Basta nos voltarmos para dentro, dentro de nós mesmos.

 

Hoje é domingo de manhã, final de um feriadão insosso o qual rendeu-me muitas aflições e amarguras. Como tem sido ultimamente, devo salientar. Sentei-me, então, nesta manhã ensolarada e com uma surpreendente brisa fria, incomum para esta época de final de primavera; tentei seguir um conselho que eu mesmo me dei, há tempos. Se o escrever me alivia, mãos à obra com minha poesia. Que seja.

 

A poesia ficou para trás. Quero apenas externar o momento de minha alma, infelizmente, sombrio. A luz tão procurada tem fugido ao meu alcance. Completei sessenta anos em setembro. Sou um estudioso do envelhecimento. A questão é que estudar é uma coisa. Vivenciar é outra. Sou um “envelhescente”. Assim como o adolescente deixa a infância em busca da maturidade e passa por muitos percalços neste caminho, o candidato à terceira idade também o faz. Mas já não pensa mais em mudar o mundo. Ou talvez não saiba mais o que pensar.

 

Minha jornada tem sido espinhosa. Não tenho tido sorte no jogo, muito menos no amor. A vida anda desbotada. O fracasso sentimental espreita-me, tolhe meus movimentos, assombra-me. Sinto-me perdido, impotente, assustado. Minhas atribuições profissionais estão estagnadas, embora produtivas e bem reconhecidas. Aposentadoria parcial bate à minha porta. Minhas filhas, com a graça de Deus, criadas, tomando as rédeas de suas decisões. Minha família não nuclear, como sempre, desajustada, disfuncional, fonte de eternas preocupações.

 

Como todos, aspiro a uma razão de viver. Nada mais piegas, mais clichê, mais comum. Parece fórmula de novela mexicana. Quão ridículo demonstra ser tal ação, já que a vida está aí, independentemente do que você possa pensar ou fazer. Deveria eu, portanto, não buscar razão e sim, rumo; rumo norte, rumo certo, caminho seguro. Irônica situação esta. Servir de farol para muitos, sem dispor de luz interior a iluminar seu próprio percurso. Não recomendo trilhar os dias desta maneira. Pode te deixar em semelhante situação.

 

A vida é um pingo no tempo infinito das coisas materiais. Olho para as paredes a me cercar, para o madeiramento dos móveis, para o piso, para as muitas pedras no jardim e constato quanto sou pequeno, desimportante. Os planetas, estrelas e corpos celestes continuarão sua dança eterna; os mares, seu vaivém; os ventos, seu fluir; as estações do ano, sua sequência, até que o Sol exploda em anã branca e engula tudo por aqui. A existência seguirá seu rumo, insensível à minha presença ou às minhas angústias. Nada, portanto, com que me exasperar, certo?

 

Ledo engano. Sigo a religião católica. Mas vamos falar da filosofia budista. Segundo a mesma, conhecer nosso verdadeiro “eu” nos leva a ter consciência plena das ações que praticamos no cotidiano. O que temos em mente, mais do que os atos da fala e do corpo.  Premeditar, pensar em tomar uma atitude, tem peso maior do que a própria atitude em si, a qual pode resultar de arroubos emocionais inadequados. Os tribunais de justiça levam em consideração estas ideias. A mente é a raiz de tudo. Crimes, guerras e ações de paz emanam das ideias, demoníacas ou iluminadas. A visão budista prioriza o que temos no coração e na mente. Em resumo, olhar para nosso espelho interior e enxergar o que realmente importa. Nossa imagem. O que pensamos, bem lá no fundo da alma. É uma viagem atribulada. A tal razão de viver. A tão falada procura da felicidade. Além das estrelas. Além do material. Além de tudo. A paz espiritual repousa em nossas atitudes.

 

Sou levado a reconsiderar, por conseguinte, minha explanação anterior sobre minha vida estar correndo, desvinculada de meus pensamentos ou atos conscientes. Sou sim o que penso, faço e falo. Os desdobramentos positivos ou negativos irão advir disso.

 

Sei que tenho menos tempo do que já vivi. Almejo ainda passar por muitos momentos bons, bem como proporcionar bem-estar aos que me rodeiam. Não quero ser tóxico, inconveniente, chato. Quero ser agradável aos olhos e ouvidos alheios. Quero parecer interessante. Estou cansado de ter razão; de ditar comportamento. Preciso de leveza; preciso de cor; preciso de amor. Tenho que agir de forma sensata, a fim de receber estas graças. Trabalhar, conviver, divertir-me. Enfim, viver. E bem.

 

Rogo a Deus e ao Buda: discernimento, sensibilidade, sabedoria. Razão de viver; de estar vivo; irradiar bem-aventurança. Menos pensar. Mais bem agir. Trazer alegria. Ser feliz.

 

 

 

 

 

 

Fonte: Quem sou eu? – Uma questão essencial para a nossa felicidade

             Mauro M. Nakamura – out/ 2020

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