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CONTRATURA MUSCULAR


Pela manhã o relógio toca e o corpo não levanta. Com uma dor lancinante na base do pescoço, contorço-me na cama até que consigo erguer a cabeça e me acostumar com a dorida sensação.
Caminho lentamente, toda torta, enquanto tento identificar a extensão da dor. O pescoço está imobilizado, as costas e o braço esquerdo latejam a cada movimento. Rendo-me vulnerável aos gritos do corpo e tento compor o histórico que teria originado tanta dor. Um tombo? Uma precipitação? Um susto?
Tudo em vão. Lembro-me apenas de bengaladas e não fui eu a agressora ou a vítima. De repente, o golpe vem de onde menos se espera, um escritor infanto-juvenil paranaense, autor de uma trilogia ecológica, com cara de bom velhinho, se aproxima e num movimento brusco golpeia quem supostamente não se comportou bem. Identifica a vítima como o antagonista de Dom Quixote, um mago que transforma a realidade de acordo com os seus interesses. Fristón! Eis a notícia! A obra de Miguel de Cervantes engrandece a agressão cometida num súbito ataque de nervosismo. O escritor/agressor ganha destaque na sociedade do espetáculo.
E a bengala ainda tinha ponta de ferro.
Na clínica de ortopedia, sou inquirida sobre as possíveis origens. Queda? Contusão? Tensão? Com as radiografias embaixo do braço, saio com o diagnóstico de contratura muscular, medicada com antiinflamatórios e relaxantes musculares (um golpe preciso em qualquer estômago) e com um atestado médico que me garante dois dias de repouso. Paliativos que amenizam os sintomas, mas não a causa: a tensão constante das obrigações e percepções cotidianas, a psicossomatização do peso do mundo e a fraqueza diante das desilusões.
Relaxamento. Deitada sobre a bolsa de água quente, abandono os jornais diários e aproveito para ler o belo romance “O caçador de pipas” de Khaled Hosseini. A narrativa seduz desde o primeiro capítulo com a lírica história dos meninos afegãos Amir e Hassam, os laços afetivos e as rupturas. A leveza das pipas contrasta com a realidade dos ódios entre as etnias, da discriminação, do domínio russo, das carcaças dos tanques abandonados, do governo dos talibãs, das minas terrestres, do povo mutilado, da intolerância e dos tantos atentados que marcam a vida dos protagonistas com uma cicatriz permanente.
Dois dias distante dos noticiários... Acordo com a atenção ainda mobilizada pela dor, dividida entre a ficção do romance lido e os relatos da cassação do deputado por quebra de decoro, da convocação para um duelo de bengalas, do incêndio provocado por marginais num ônibus no Rio de Janeiro, do plano de Bush para “vitória completa” no Iraque, da retração da economia brasileira...
Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 05/12/2005
Código do texto: T81249
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 47 anos
614 textos (789762 leituras)
2 áudios (1258 audições)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 03/12/16 22:07)
Helena Sut

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