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         Emilinha 

       Quando Marlene foi para UTI, preparei-me para escrever sobre ela. Passei, então, a acompanhar o noticiário sobre sua doença e sua repentina internação hospitalar.
         Mas Marlene, com 80 anos de idade, logo se recuperou.  E, surpreendendo, deu um adeusinho à Casa de Saúde Pinheiro Machado, em Laranjeiras, zona Sul do Rio de Janeiro. Sua hora não havia chegado.

           Quem morreu, dias depois - 3 de outubro de 2005 - aos 82 anos, no Rio de Janeiro, seu chão natal, foi Emilinha Borba. Um infarto a retirou, definitivamente, dos palcos.

                    Eu estava no Ceará no dia da morte da sua morte. Com uma saudade danada, ouvi, atento, pela Rádio Dragão do Mar, o seu necrológio. 
                   E pela TV Verdes Mares, acompanhei seu enterro, no cemitério do Caju. Um enterro cheio de lágimas;  de velhas cantigas; de flores; muitas flores... na hora do crepúsculo carioca.
           A banda dos fuzileiros navais tocou no seu sepultamento. Nos bons tempos de sua envolvente carreira, a Marinha de Guerra lhe dera o título de a cantora favorita dos marujos do Brasil.


               Venho da época dos borbulhantes programas de auditórios. Cheguei a ser um de seus macacos mais autênticos. Era a oportunidade que eu tinha, no fulgor dos meus vinte anos, de ficar, cara a cara, lado a lado, com meus ídolos.
           Por exemplo. Na Ceará Rádio Clube e na Rádio Iracema de Fortaleza, idos de 1952-53 e 54, eu acompanhava, embevecido, os cantores e cantoras da casa; Aíla Maria, me lembro dela. 
           Aplaudia-os demorada e entusiasticamente, com frenéticos gritos, e assobios moleques.  Ah, as "jovens tardes de domingo"... Quanta saudade!

           Pelas Rádios Nacional e Mairynk Veiga do Rio - eu possuia um possante rádio Philco - acompanhei Emilinha Borba nas suas salutares "brigas" com a irrequieta Marlene, ora no programa César de Alencar ora no programa Manoel Barcelos. 
           Com seus sucessos, simpatia e muito talento, elas buscavam, a cada programa, conquistar o maior número de adeptos, para consolidar, em definitivo, seus respectivos clubes de fãs. 

                   Em um determinado momento de sua gloriosa trajetória artística, Emilinha ganhou, dos seus fervorosos admiradores, a coroa de "Rainha do rádio". Votei nela. Aliás, estive com ela o tempo todo. Inclusive, quando já não se ouvia mais a sua voz nas rádios, a partir de 1968, se não estou enganado.
           Nesse ano, suas cordas vocais, a-do-e-ci-das, começaram a falhar, tirando a beleza do seu sedutor gorjeio.

           Não a conheci pessoalmente. 

                  Mas sentia-lhe a presença viva, toda vez que a via nos palcos dos inocentes filmes (chanchadas?)da divertida Atlântida - "Este mundo é um pandeiro", "É com esse que eu vou", entre outros - ao lado de Ivon Cury, Dircinha e Linda Batista, Eliana, Cyll Farney, Doris Monteiro, Adelaide Quioso, Oscarito, Grande Otelo, e de outras extraordinárias estrelas, que alegravam o gostoso Brasil dos anos doirados.

         Com seu sorriso largo e requebros discretos, saia godê, cinturinha fina (de pilão?)Emilinha Borba encantava os brasileiros cantando "Pó de mico", "Com jeito vai", "Tomara que chova", e uma inesquecível marchinha (marchinha? O Ary Barroso não iria gostar do diminutivo...) chamada "Chiquita bacana".

          Chorei sua morte. E comigo choraram, com certeza, os coroas com mais de sesent´anos de idade. Velhos felizes!
          Chorei sua morte, como chorei a morte das irmãs Batistas, da Isaurinha Garcia, da Dalva de Oliveira, da Dolores Duran e da Elizeth Cardoso.

           Despedi-me de Emilinha escutando-a cantar Assim se passaram dez anos, a canção que, um dia, acariciou meus sonhos de jovem apaixonado perambulando, sem maiores compromissos, pelas ruas tranqüilas da Fortaleza dos anos 50.
           Depois, fechei meus olhos, agora ameçados pela catarata, e recordei, morrendo de saudade, as alegres "Cantoras do rádio". Entre elas, Emilinha Borba, que, como disse,  acabou de partir...
 
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 05/12/2005
Reeditado em 24/05/2014
Código do texto: T81340
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Sobre o autor
Felipe Jucá
Salvador - Bahia - Brasil
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Felipe Jucá

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