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A PAZ É CRIAÇÃO (O DESERTOR)

     O desejo de paz é desconhecido. Aflora no indivíduo como um suspiro de harmonia. Será covarde o desertor que em meio à carnificina recusa-se a ver tanta morte e violência? A paz é a extrema consciência entre semelhantes. O que frutifica o acordo, a aliança serena em conturbado cenário. O que será, então, a covardia? A recusa da luta?
    A paz seria, então, a recusa consciente do que derrama sangue e sabe do seu desperdício. E a covardia apenas um anterior medo inconsciente e irracional.
     O desertor não questiona estes conceitos. Vê, apenas, o suor e o sangue dos muitos exércitos heterogêneos que não se identificam entre si. O desertor então retrocede. Deixa o combate e vai ao encontro da paz, e percorre todos os caminhos que levam à guerra. Logo, sai da frente de luta e é perseguido como desertor. Sem sustento e renegado, o desertor atravessa todos os continentes, foragido. Seus olhos vêem o que os homens fazem da palavra paz e de sua imagem.
     Primeiramente, o desertor vê a guerra pelo sustento, pela sobrevivência. O seu estômago requer alimento e a guerra do trabalho e da fome da consciência se inicia. Fugindo da guerra, o desertor começa a luta pelo trabalho. Uma luta sem tréguas. O que é a paz agora para o desertor, quando ele se defronta com a luta pela sobrevivência? O homem entra em conflito extremo com a natureza. Torna-se diferente da natureza. Um ser extremamente consciente de si, pesquisando fontes, concretizando estruturas complexas que trazem o primordial conflito com a natureza dentro de si. É a estrutura na qual o desertor dentro está procurando sem limites, perseguido pelos agentes da guerra declarada que se efetua na frente da guerra disfarçada e encoberta. Uma guerra implícita realiza-se para onde o desertor foge.
     O seu combate pelo sustento, o seu espírito sob águas turvas, debatendo-se em meio à fome e às outras vozes, criando o ambiente de disputa e desespero... O estopim daquela guerra está neste centro de conflito entre o homem e sua própria natureza. E a paz pensada pelo desertor, esta paz que interliga todas as coisas e faz pousar a gravidade em todo o cenário. Não há cenário sem paz. E quantas tempestades, quantas erupções, que parecem batalhas universais; quantos terremotos acontecem para se chegar à harmonia e contorno de um céu e de uma superfície pacífica da terra!
     O desertor ainda sabia do conflito do homem com sua natureza, a natureza exterior e interior, as explosões de sofrimento que isto exigia para se chegar à paz do sustento, da guarida, da segurança no conhecimento. Mas, por que a guerra em si vinha devastadora? Por que a guerra do universo atinge sempre algo, quando a guerra dos homens leva a uma destruição tão sem sentido? Ou terá sentido esta guerra como conseqüência do conflito entre o homem e a natureza?! Porém, as forças de expansão desta guerra podem adquirir aspectos tão irracionais que passam a ter prioridade, isto aliado à profundidade do ser humano que se emaranha dentro de suas teias. A paz então pode se tornar longínqua como os caminhos que o desertor traça para a sua fuga. Pode se tornar um lema inofensivo na ânsia de alguns homens sinceros. Pode se tornar uma palavra inócua para os que torturam a espécie humana inconsciente e vivem no centro dos altos interesses. A paz como elo de harmonia que se relaciona com tudo o que vem do conflito e vinga, esta mesma paz vai sendo ameaçada. O desertor pôde sentir esta paz quando estava feliz, em harmonia com a manhã que cintilava os olhos e que nasce tantas vezes para nós.
     A paz se compara, e muito, com a felicidade de quem suspira o ar e se sente leve, sem o peso da arma, do inimigo, do ódio, da sombra, do temor. O covarde talvez seja o marginal da guerra. O homem que viu toda a estupidez de uma fábrica de morte, onde o dia-a-dia se constitui de uma técnica de se matar melhor, tanto o invisível sentido de ligação à vida quanto o corpo que representa uma natureza em semelhança com o mundo.
     O desertor então exagera os seus passos no labirinto de guerra que não tem fim. Defronta-se com um vulcão, e as lavas mostram o tormento no fundo da terra. O desertor sente frio em meio à tempestade, mas a paz dos orvalhos, de repente, vem esfriar o seu desespero por uma guarida pacífica. Na fraqueza da fome vai caminhando o desertor. Com os pés queimados pelas lavas do vulcão, a sua imagem parece desmanchar-se no espelho ilusório da paz. A guerra contra si mesmo era assim efetuada como uma tatuagem feita a fogo. Grudava o seu suor na pele, queimando como lavas de vulcão. Seus olhos procuravam a arquitetura pronta de uma fonte pacífica, onde pudesse descansar e recolher para a harmonia o seu reflexo humano.
     O desertor visualizava, então, um abraço universal, com a formação dos mais belos recantos da terra.
     O desertor seria, então, como um granito, no qual os pés dos homens pacíficos caminhariam para as fontes de liberdade, onde o sabor da vida se expande.
     O desertor visualizava a paz no labirinto no qual os vulcões semeiam os corações no fundo da natureza. Já caindo em meio ao fogo, o desertor chega a uma praia distante, e lá vê a revolta do mar e seu espírito se desespera entre as águas. Tudo porque ele entra nas águas conflitantes, e o sal toca suas feridas e seu grito ecoa pelo tormento.  É como se a visualização da paz se conflitasse com o vulcão que, distante, ameaçava com suas lavas.


FERNANDO MEDEIROS
primavera de 2005
FERNANDO MEDEIROS
Enviado por FERNANDO MEDEIROS em 08/12/2005
Reeditado em 18/12/2005
Código do texto: T82385

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Sobre o autor
FERNANDO MEDEIROS
Campinas - São Paulo - Brasil, 53 anos
155 textos (8752 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 03/12/16 20:15)