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Sobre o Tempo

Algumas pessoas lutam contra outras pessoas.

Outras lutam contra a vida, em si, talvez a abstração mais odiada de que se tem notícia. Destas, as que se saem vitoriosas na média dos embates, podem encher a boca e até dizer que a amam.

No meu cotidiano, fui colocado na condição de testemunha íntima da luta de outros tantos contra a morte, esta sim um inimigo insuplantável. Contra ela não há vitória, tanto que os séculos e as línguas tendem, em sua maioria, a chamar os que a sobrepujam muito mais de “poupados” que de “vencedores”.

Minha batalha é contra o tempo, o inimigo intangível, amalgamado a aquele seu adjetivo preferido (“inexorável”), aliado fiel dos lados obscuros dos possíveis inimigos listados acima, sempre a me ultrapassar nesta louca corrida em que vivo, agindo sob disfarces tão bem-feitos que o deixei passar despercebido por tanto “tempo”, que agora mesmo me falta o elemento básico necessário para bem poder enfrentá-lo: o conhecimento de suas características.
Exaspero-me com o passar dos anos úteis como outrora me exasperava com o passar de outros, ditos “inúteis”, sem saber que tudo, sempre, foi uma mesma e única batalha.

Na juventude não me preocupava dele – o que já era, per se, uma espécie de preocupação. Via-o passar lentamente, na infância, nas tardes quentes de verão em minha cidade natal, brincando ou lendo no jardim de minha casa, demorando-me a observar a mudança da sombra sobre a qual estendia um pano qualquer para me deitar enquanto cheirava o verde, observava as borboletas, acariciava o ronronar estendido ao meu lado. Depois veio a pressa dos anos que parecem nunca acabar, das noitadas insones, dos excessos benfazejos que me moldaram a alma boêmia e acumularam sensações e descobertas inesquecíveis e efêmeras. Então recomeçar, partir, não do zero absoluto, mas do cronômetro ressecado donde surgiram novos horizontes, planos, filhos, trabalhos – mas não ainda um novo homem.

Hoje que consegui tudo o que queria olho para os lados e só vejo mais pressa, mais velocidade, menos emoção e mais mecanicidade, como se tudo que fizéramos antes só nos trouxesse a esta gigantesca fábrica de ossos. Familiares que se vão, amigos mortos antes de mim – tão cheios de vida que trago-os ainda comigo, na lembrança de suas vozes, em seus rostos ainda formatáveis nos recessos escondidos da memória: a sorrir com suas bocas imateriais alguma mensagem que me escapa. Como o tempo, este fujão, que me traz insônia e desamparo na busca por sua imagem que já sei inexistente; que urge o grito por guerra em minha garganta de ronin desesperançado em procura idiota por alguma missão que pague a pena; que me faz sentir o pior dos sentimentos que uma guerra traz - a crença inabalável de perder-me de mim mesmo: exemplo clássico da Física, onde aquele que viaja na velocidade da luz reencontra em seu retorno um mundo que envelheceu.

Queria colocar um tijolinho na cabeça de meus filhos, pedir-lhes que crescessem menos depressa; impedir a luta pela vida – aquela, a primeira – de tragar-me tantos bons momentos subaproveitados; sentir de novo aquele estado de animação suspensa que o início da paixão nos traz: desligar todos os telefones do mundo, apagar todos os cenários ou só enxergá-los em cores vivas e em detalhes; sentar no alto da colina e enxergar o mundo do alto – lá, onde o vento se encarrega de tornar inúteis os relógios. Desligar o inconcebível tiquetaquear dos genes a me destruir o corpo e a saúde, retardar a morte – não saber mais dela, não estar presente em tantas passagens para o nada.

Queria redescobrir o lúdico, hoje restrito a tantos objetos manufaturados, passeios repetidos, cansaços inadiáveis. Ou talvez ser esquecido como Ahasverus, o judeu errante - não por penitência ou condenação, mas por esquecimento mesmo, da parte de Deus ou do universo. Talvez encontrar um planeta onde os dias tenham quarenta e oito horas; uma realidade paralela onde tudo nos seja servido mais devagar, como uma boa refeição francesa; ou melhor: a possibilidade de criar aqui mesmo, nesta existência, um jeito de dizer “calma” como se fosse um mantra e milagrosamente descobrir que o inimigo sumiu (iludido por meus sortilégios), que a vida continua sem que nos seja exigido tanto, sem que nos seja tomado tanto. Liberto, enfim.

Porque das outras coisas - pessoas, vida, morte – já perdi o medo. O que dorme comigo e me assusta nos sonhos é só a possibilidade de acordar um dia e ver que tudo passou.
Renato van Wilpe Bach
Enviado por Renato van Wilpe Bach em 09/12/2005
Código do texto: T83203
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Sobre o autor
Renato van Wilpe Bach
Ponta Grossa - Paraná - Brasil
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