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EMARANHADO

EMARANHADO

Sou o tudo que engloba tudo. Sou o magma das entranhas da terra, explodindo crosta afora e levando vapor e calor na proporção reguladora de clima propício à formatação da vida. Componho e decomponho os elementos favorecendo o surgimento das moléculas vitais. Sou o equilíbrio frágil do início dos tempos que estão sempre a iniciar.
Sou o reino vegetal com seu viço clorofílico, pintando o verde planetário na eterna absorção do carbono e na produção do oxigênio propiciando a existência do reino animal, que sou também. Revisto-me do colorido e do perfume das flores, da lepidez e da excentricidade de minhas inúmeras espécies. Regulo-me pela evolução e sobrevivo de mim mesma. Respiro-me, bebo-me, como-me. Nada se perde, tudo se transforma. O que de mim morre alimenta o que nasce num permanente ciclo.
Sou o líquido salgado dos oceanos, habitat da vida em todas as escalas. Sou o gás da atmosfera, cor do firmamento, suporte e transporte na alternância dos estados da água. Sou, às vezes a calma inerte do mar sem ondas e da atmosfera calada, mas sou também a turbulência dos ventos nas tempestades e gigantesca agitação das águas.
Sou repleta de vozes a ferir meu próprio silêncio. Sou, na combinação dos sons, a música captada pelos ouvidos animais. Exalo os odores mais fétidos e inebrio com os perfumes mais insinuantes. Provoco o eterno nascer pelo prazer das cópulas. Sirvo-me de mil artimanhas para me fecundar. Sou a cadeia iniciada na partícula atômica, evoluindo sem cessar, rumo aos complexos seres na água, na terra e no ar. Culmino na gente com mente capaz de pensar. É nesta que existe meu azar.
Crio e recrio sem nunca me atrapalhar. Apenas a cria suprema me confunde. Tomou a si muitas de minhas incumbências. Pensa que pode o que apenas eu devia poder. Altera as minhas paisagens. Remodela meus elementos. Cruza as minhas espécies. Agride as minhas composições de água, solo e ar. Altera meus códigos que sempre mantive secretos.
Sou poderosa e frágil em função de meus próprios poderes. Sou capaz de terríveis vinganças para me defender. Substituo as formas extintas por outras. Meu tempo não existe. Os seres pensantes apenas o imaginam baseado nos movimentos terrestres. Minha base é universal. Todas as minhas crias são maravilhosas, mas recebem as benesses conforme me tratam.
Sou a minha própria justiça. Defendo os meus direitos e cumpro meus deveres com a criação. No frio crio a alvura da neve que prendo em geleiras a cobrir continentes. No meio termo tenho líquido em profusão e no calor crio o vapor, formando nuvens que podem amainar a força do sol ou inundar de chuva as terras. Adapto minas formas de vida às condições diferentes em cada paisagem. Influo-me de um lugar ao outro. Retribuo todas as gentilezas e todas as agressões.
Sou a mãe e o pai de mim mesma. Sou a sensibilidade vegetal, o instinto animal, a inteligência humana. Sou o medo que rege a sobrevivência. Sou a adaptação a minhas condições e disponibilidades. Meus limites são perceptíveis pela inteligência mas sensíveis demais para serem ignorados.
Sobrevivo por mim mesma. Não hesito em eliminar meus agressores para me proteger, nem que sejam frutos de minha evolução. Apenas morrerei quando meu supremo criador retirar os suportes e apagar para sempre a fonte de minha energia: o Sol.
No emaranhado de meu existir consiste minha beleza.
Na ganância do homem espelha-se minha tristeza.
Sou início, meio e fim. Sou Natureza.


Prof Roque
Enviado por Prof Roque em 21/12/2005
Código do texto: T89036
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Prof Roque
Santa Rosa - Rio Grande do Sul - Brasil, 67 anos
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