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PECADOS QUE COMPENSAM


Escrever sobre lembranças costuma ser encarado como assunto fora de moda nesses tempos sem memória.
Por causa, talvez, da entrada nos cinquenta anos eu venho me perdendo em muitas. Abre-se o baú e dele se tiram filigranas da alma, esponjando as gratas lembranças. As ingratas são logo esquecidas, ou colocadas sob um pesado tapete. Gostamos de trapacear.
Nesses momentos invisto-me de narradora solitária rabiscando numa lousa imaginária, de luz e fantasia, a minha passagem pela vida. Distancio-me de mim mesma nesses intervalos e me observo como outra, uma personagem sobre a qual lanço um olhar de coruja atenta, colado na vitrina da existência.


Hoje  me pus a pensar sobre religião, sobre minha educação religiosa, católica apóstola romana, seus preceitos, a noção de pecado, minha curiosidade em flanar pelos jardins de outras religiões.
Mudei ao longo dos anos. Não de religião, mas de compreensão. Ou, talvez, apenas tenha deixado se cristalizarem minhas opiniões tidas como hereges no antigo Colégio da Sagrada Família, no paulistano bairro do Ipiranga, onde fiz todo meu curso primário.


Não concebo uma religião que se valha da punição, da dor, da expiação, da intolerância. Ora, não somos humanos? Não nos foi dada a imperfeição lato sensu? O estigma do pecado original?
Aborrece-me também a vaidade com que os religiosos se autoproclamam humildes. Ou pessoas especiais, o povo escolhido por Deus que habitará o Paraíso após a morte.
Quantos preconceitos não são lavrados em nome dessa escolha deífica excludente!

Fui aluna de colégios católicos até meus quatorze anos.
Nunca conseguiram enraizar em mim o temor a Deus, pouco importando o que signifique esse temor. Minha rebeldia era silenciosa e não permitia que eu justificasse às freiras e padres o meu conceito de Deus. Mas eu não aceitava esse temor. Para mim o que existia era um Pai bondoso, disposto a tudo compreender e perdoar. E não me importava o que pensassem sobre mim.  Era arrogância? Egotismo? Talvez.


Naqueles tempos, as salas de aulas e demais dependências escolares ostentavam em alguma parede branca o triângulo da Divina Trindade, o olho de Deus ao centro e a inscrição "Deus te vê!". Nos banheiros havia ,ais de um. Por que seria, não?
O sentido desse símbolo era o de atemorizar as alunas, fazê-las vigilantes de seus atos para não caírem em pecado., não terem pensamentos "sujos".
Jamais me intimidei com isso. Sentia-me feliz que Deus me visse. Ainda bem pequena elegi-o meu companheiro de brincadeiras, meu amigo confidente, meu cúmplice nas traquinagens, meu escudo e guarda-costas. Muitas vezes combinei com Ele tramoias e mentirinhas para dizer aos meus pais e professores. Deus preencheu, e preenche, a minha vida, numa cosmovisão panteísta. Todas as coisas são unas, são faces de uma mesma moeda; modos diferentes de manifestação do Absoluto, a emanação de Deus, que se desdobra eternamente. Jesus é um dos seus desdobramentos. Deus é o Criador e o reconheço como tal. Entretanto, acredito na total responsabilidade do homem sobre as coisas do mundo. Criadores lançam seus produtos. Podem ser livros, telas, remédios, tecnologias, instrumentos. O que se faz com eles, como são digeridos, que relações são estabelecidas, que "subprodutos" se criam, são artes dos humanos. Ou seus desastres.


Mas voltemos às boas lembranças.
Tínhamos um presépio bem comum em casa, sem a riqueza de detalhes com que muitas famílias montavam seus presépios. Éramos simples e nosso presépio igualmente simples, de poucas peças: Maria, José, os Reis Magos, um galo, um burrinho, a manjedoura com o Menino Jesus, a estrela-guia em brocado e um anjo.
Eu tinha mais ou menos cinco anos e costumava retirar o anjo do presépio. Embalava-o na palma da mão, como se fosse uma boneca, com zelo calculado de uma mãe que tira e coloca seu bebê no berço.
Era lindinho, pequeno, cabelos dourados, a veste azul.
Minha mãe brigava comigo. Temia que eu derrubasse ou quebrasse o anjinho de gesso. Eu respondia que o anjo era meu e que ele sentia frio. Relato dela. Não me lembro se eu dizia exatamente isso. Nunca entendi porque no presépio me chamava atenção o anjo e não o Menino.
Todo ano a história se repetia, com outras falas e um adulto a me alertar que tomasse cuidado com o anjo! Ah, como ele parecia frágil aos meus olhos.


Não sei ao certo se foi aos nove ou aos dez anos.
O fato é que numa das brigas com minha mãe resolvi me vingar.
Não era Natal. Era qualquer dia do ano.
Abri a caixa de papelão onde guardávamos o presépio e roubei o anjinho.


Em dezembro daquele ano, a família ficou interrogativa ao não encontrar o anjo na caixa. Intrigada.
 “Que foi feito dele?", perguntavam-se. Perguntavam-se e me olhavam, ressabiados, suspeitando de alguma participação minha no caso do sumiço.
Cogitou-se de alguém tê-lo quebrado ao guardar.
Minha mãe inquiriu todos, aquele pandemônio! Eu, às escondidas, saboreava a delícia do furto e da vingança.
Escondi-o numa pequena embalagem de perfume. Escondi-o durante anos!

A cada Natal a família se lembrava do anjo que sumira. E somente eu, a ladra feliz!, tinha-lhe posse e acesso. 
Era tudo tão claro para mim! Considerava o ato como de reintegração de posse. Estava comigo por direito legal que eu me atribuíra.

Melhor de tudo: Deus me vira, sabia de tudo e não interviera!


Nunca ninguém descobriu o delito. Ou se descobriu, não disse.
Aos quase trinta anos deixei a casa de meus pais, montei meu apartamento.
Desde então, num cantinho sincrético, entre cristais, runas, velas, incensos, mandalas, em lugar de destaque, está o pequeno anjo azul de oito centímetros trazido da minha infância. Sem retoques. Meio desbotado hoje. Exatamente como eu o roubei.

No primeiro natal  em meu novo lar chamei os familiares  para confraternização e para verem o anjo. Estava liberto do meu segredo depois de vinte anos!
Perplexos, sorriram de alegria por rever o anjo antigo. Minha irmã mais nova sequer o conhecera.


Enquanto escrevo essa boas lembranças ele,  maroto, bem próximo do meu computador, sorri e pisca os olhos pra mim. Quero interpretá-lo assim e que se sente bem ao meu lado.


Há pecados que compensam.


31/08/2005

 
 
KATHLEEN LESSA
Enviado por KATHLEEN LESSA em 23/12/2005
Reeditado em 27/06/2014
Código do texto: T89651
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
KATHLEEN LESSA
São Paulo - São Paulo - Brasil
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