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A VIAGEM

Era o início da viagem. E seria uma longa viagem. Eu não estava sozinho; muitos me acompanhavam.

Apesar de alguns percalços, o caminho era bom. Não me atinava muito com sutis demonstrações do que poderiam ser, mais adiante, os marcos divisórios da viagem.

Manhã ainda. Ninguém prestava muita atenção em nada específico. Na realidade ainda não estavam acostumados com a idéia de estarem se entregando lentamente aos sabores que tal empreitada revelaria, e de fato já estava revelando.

Ao principiar a estrada, as imagens sugeridas pela paisagem era uma novidade reconfortante. Tornavam a convivência mais pacífica, harmoniosa. Havia muito a conhecer, todos estavam maravilhados e o mais que faziam era sorrir comigo o tempo inteiro, como se vivêssemos uma espécie de gozo coletivo, ingênuo.

Os novos sentimentos despertados pela cumplicidade eram tão fortes que a viagem, logo de início, sugeria, ainda que inconscientemente, mais que um simples passeio, era promessa de muita diversão.

A sensação de liberdade ainda não havia esbarrado nenhum obstáculo. Tudo parecia estar dentro de certa conformidade aceita por todos. Apesar de algumas pequenas encrencas, tudo se resolvida. Tudo parecia não passar de uma grande brincadeira.

Aos poucos fomos percebendo que a viagem não seria tão longa como pensáramos outrora. A tarde começa a tomar o lugar da manhã. Será que logo acabaria aquela farra, passamos a indagar.

Decidimos então que era melhor tratar de fazer tudo que tínhamos em mente, afinal já não sabíamos por quanto tempo continuaríamos na estrada. E era melhor aproveitar essa etapa, pois apesar de prometerem que depois da estrada ainda teríamos muito pra conhecer, ninguém pretendia esperar até lá pra descobrir. Então dá-lhe amor, dá-lhe desafios, dá-lhe experiências e tudo mais que tivéssemos em mente... e além dela.

Foi só então que algo estranho começou a acontecer. A tarde à pino. Nem todas as expectativas eram compartilhadas, nem tudo era como todos queriam. Os monitores passaram a agir de forma diferente, às vezes até com certa aspereza no trato. Mas mesmo assim, apesar das pequenas diferenças, continuamos a nossa aventura.

Porém, logo uma simples conversa já não bastava para resolver impasses, por isso algumas pessoas passaram a agir de forma rude, por não aceitar o boicote dos tais monitores ou do grupo em geral. E enquanto alguns ainda permaneciam como no início da viagem, aceitando os limites, outros já não aceitavam mais aquelas mesmas brincadeiras e jogos; queriam sempre mais; esperavam sempre mais.

Eu mesmo já estava começando a não participar de certas situações que até então tanto me divertiam. Começava a brotar um certo marasmo. Algo tedioso. A incipiência da noite já alterava as nuances do azul celeste.

Não demorou muito, o que era uma grande folia sedimentou-se; o grande grupo dividiu-se em pequenos grupos. Panelas. Cada qual e seu rumo. Mesmo tão próximos fisicamente, eram separados por um fosso que não parava de aumentar a distância entre todos. Foi inevitável, lamentável e natural.

De repente, um baita susto. Após um breve cochilo abro os olhos: onde estão todos que estavam comigo!? Olho para os lados. Para todos os lados. O que vejo? Um grande deserto! Ou melhor, uma espécie de cidade fantasma, onde as pessoas movem-se automaticamente; mortos-vivos. Não sei direito onde estou nesse momento, e perdi quase todos meus fiéis companheiros de outrora.


Continua...
Leonardo André
Enviado por Leonardo André em 26/12/2005
Reeditado em 26/12/2005
Código do texto: T90645
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Sobre o autor
Leonardo André
São Paulo - São Paulo - Brasil
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