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A menina Iza

A Fraternidade Espírita Irmão Glagus, FEIG, carinhosamente chamada de Casa de Glacus é uma instituição com sede em Belo
Horizonte, Minas Gerais, onde tive o prazer de morar 8 anos de minha vida. A FEIG possui mais de mil e quinhentos

trabalhadores nas mais diversas tarefas de auxílio ao próximo, todos voluntários, também tive a honra de participar desta grande equipe onde atuei na equipe de passes e em uma das mais de setenta equipes que visitam enfermos nos lares e nos hospitais.

Uma vez por semana visitávamos três ou quatro pessoas enfermas que faziam a solicitação de assistência espiritual à nossa casa, as visitas persistiam enquanto o tratamento espiritual estivesse em curso, o departamento mediúnido da casa programava de quatro a oito visitas e ao encerrar este prazo uma nova consulta era feita, geralmente mais algumas
visitas eram recomendadas até que o enfermo pudesse se recuperar.

Quando entrei em uma das equipes que faziam visitas às quartas-feiras, uma visitada muito especial já recebia
atendimento da equipe que me adotou, era a menina Iza.

Iza nasceu com uma doença rara, vivia mais na UTI pediátrica do que em casa, os médicos desconheciam por completo a tal
doença, ela nasceu cega, surda, muda e com fortes deformidades no corpo. Tinha dificuldades para respirar e para se alimentar. A junta médica previu não mais que seis meses de vida para a Iza, o caso era irreversível.

Através das pesquisas médicas descobriram que apenas 48 casos desta enfermidade já haviam sido identificadas no mundo inteiro, as causas e obviamente a possibilidade de cura eram totalmente desconhecidas, Iza seria mantida enquanto fosse possível. Destes poucos casos, a grande maioria a familia abandonou a criança à própria sorte. E foi exatamente o contrário o que aconteceu com Iza.

Os pais da menina Iza são de origem pobre, ambos trabalhadores que não possuiam uma renda muito grande, apenas o suficiente para manter uma pequena casa com um quarto, sala, cozinha e banheiro em um bairro residencial em Belo Horizonte. Habitação simples mas extremamente bem cuidada e limpa.

Iza requeria cuidados integrais e os pais revezavam-se para poder dormir algumas horas por dia, pois a qualquer recaída
seria necessário levá-la imediatamente à UTI pediátrica para os devidos socorros. Alguns familiares de Iza, a maioria protestantes, acusavam tanto o pai quanto a mãe de terem sido pecadores e agora o castigo recaiu sobre a filha deles,
logo na primeira filha, eram humilhados por terem um filho doente, sofriam toda a sorte de preconceito, mães de filhos
saudáveis não se aproximavam por medo e ignorância, pois achavam que "aquilo" era contagioso.

Iza foi levada a padres e pastores e quando seus pais decidiram buscar ajuda em um centro espírita, a chuva de
preconceitos aumentou drasticamente.

Apesar de tudo, Iza completou um ano de idade, seus pais fizeram bolo com balões coloridos, tiraram fotos, as quais
usaram para decorar a pequena sala de estar de sua casa, Iza tinha um berço, brinquedos coloridos e roupinhas cor-de-rosa, típica de crianças recém-nascidas, tudo isso misturado ao tubo de alimentação, ataduras, compressas e remédios utilizados para tratar os ferimentos causados pela mobilidade do pequeno corpo de criança.

Ela geralmente ficava sentadinha apoiada por almofadas e travesseiros ou então no colo da mãe ou do pai, não era
possível saber se ela tinha fome, sentia dor ou o que fosse, pois não dispunha dos sentidos físicos para se expressar,
não podia chorar, não ouvia a voz da mãe que balbuciava pequenas cantigas e palavras de afeto. Apesar dos lindos olhos azuis ela não podia ver a luz do sol. Apenas o instinto materno sabia e entendia as necessidades de Iza.

Visitávamos Iza sempre que ela estava em casa ou então nos horários possíveis de visita às crianças da UTI pediátrica,
quando o tratamento era muito intenso, nossa visita era impedida devido aos procedimentos médicos, mesmo nestes dias nós nos reuníamos dentro do carro que usávamos para o trabalho e juntos, fazíamos uma preçe por ela, pedindo que o auxilio necessário fosse encaminhado à nossa Iza.

Com pouco mais de um ano e meio de vida, seu pequeno corpo físico não resistiu e acabou sucumbindo, Iza nos deixou e
quebrou a previsão pessimista de que viveria apenas 6 meses, viveu quase quatro vezes mais do que o previsto, não foi só
isso que ela nos deixou, com o desenlaçe de Iza nossa tarefa estaria terminada ali, porém uma semana após sua morte fizemos uma visita aos pais, por nossa própria conta, e lá ficamos por quase uma hora conversando com eles, conseguimos
mostrar aos pais o quanto de amor que a filha recebeu, o quanto eles foram corajosos e que nem mesmo nos piores momentos eles ficaram desamparados, quando foram duramente criticados o amor pela filha superou as amarguras e o fizeram seguir adiante, quando os familiares próximos lhes fecharam as portas, outros desconhecidos abriram-lhes janelas, a passagem de Iza, além de mostrar a força do amor dos pais por um filho e da união do casal, trouxe muitos subsidios para a medicina, todo o tempo que esteve sob a batuta dos médicos estes também aprenderam e poderão usar o que descobriram para novas opções de cura.

Uma pequena menina doente, cega, surda, muda e cheia de deformidades foi capaz de mostrar a muita gente o quanto de
veneno ainda temos que remover de dentro dos nossos corações e principalmente mostrou que o amor remove uma multidão de
pecados.

Sou extremamente grato a Iza pela lição que ela me deu, por ter me mostrado que a verdadeira perfeição não é a física,
que o verdadeiro amor não se expressa apenas em um corpo saudável, que quando amamos realmente podemos superar qualquer dificuldade.

Obrigado pequena menina.
Fred
Enviado por Fred em 30/12/2005
Reeditado em 30/12/2005
Código do texto: T92414
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Sobre o autor
Fred
Blumenau - Santa Catarina - Brasil, 45 anos
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Fred