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País abençoado (II)

O Congresso Nacional está em regime de convocação extraordinária. Isto quer dizer que os senhores parlamentares, deputados federais e senadores, irão "trabalhar" alguns dias a mais e receberão dois salários extras em troca.
Esse fato, que se repete a cada ano, atesta a total incompetência dos nossos congressistas. Além de incompetentes, são espertos, no mau sentido.
Passaram o ano inteiro fazendo discursos inúteis, deixaram de votar matérias cuja apreciação era sua obrigação, atacaram-se mutuamente situação e oposição, conversaram sobre os mais diversos assuntos e vai por aí.
As sessões são um graça: alguns não comparecem, outros dão-se como presentes e saem, voltam, tornam a sair, enfim, aquilo parece casa de mãe Joana. E todas essas coisas acontecem de terça a quinta-feira, porque as casas não se reúnem às segundas e sextas-feiras. É mole?
Nos primeiros dias das sessões extraordinárias quase ninguém apareceu. Também, seria exigir demais desses representantes do povo. Afinal, estamos às vésperas de Natal e Ano Novo.
Quer dizer, estão recebendo três salários no mês, além dos penduricalhos de praxe, para não fazer nada de útil.
E nós, eleitores por obrigação legal, temos que conviver com tal descalabro.
Em pouco tempo iremos nós, obrigatoriamente, de novo às urnas para escolher quem vai merecer ganhar tantos privilégios. É tão ridícula a situação que esses senhores, mesmo agindo como agem, merecem entre sí o tratamento de "Vossa excelência", quando em plenário. É brincadeira, como já disse alguém. Não dá para aguentar.
Eles têm que votar o orçamento para 2006. A maioria nem sabe o que é um orçamento. Discutem mais as famosas "emendas", ou seja, as verbas que cada um deseja incluir na lista de despesas do governo, para fazer média em seus currais eleitorais.
Será que esses homens e mulheres, eleitos que são pelo povo, pagos que são pelo povo, não têm a menor consciência do seu papel? Não são capazes de trabalhar com um mínimo de organização, para honrar o mandato que receberam? Será que eles acham que tanto faz fazer ou deixar de fazer? Pobre Brasil. Ninguém é capaz de ter uma boa idéia para melhorar alguma coisa neste país?
Parece que o objetivo maior dos parlamentares é a infindável luta entre governistas e opositores. Isto é, para eles, um fim em sí mesmo? Será que não tem um congressista capaz de alertar os demais para o que é realmente importante para o Brasil e convocar os seus pares para que tomem consciência do seu verdadeiro papel? Será que somente são capazes de pensar em como se eleger nas próximas eleições?
Não tem jeito. O Brasil, em termos de um futuro mais promissor, não tem a menor possibilidade. Além de um poder legislativo obtuso, tem também os poderes executivo e judiciário totalmente retrógrados. O negócio de todos eles é serem donos do poder, usufruir de suas benesses, dane-se o resto. O resto somos nós.
Além de donos do poder querem, e tudo fazem nesse sentido, permanecer no poder a qualquer custo.
Não têm nenhuma auto-crítica da sua incompetência, da sua falta de visão, falta de espírito público, enfim, somos governados por um punhado de pessoas muito espertas. E como são espertas.
Não vejo como, a curto e médio prazo, talvez até a longo prazo, vislumbrar um futuro menos dramático para a maioria da população brasileira. Quase todos estamos dentro de um barco, prestes a naufragar. Salve-se quem puder. Alguns não estão nesse barco. Estão tomando uísque e vendo o tempo passar. Ou fazendo discursos.
Augusto Canabrava
Enviado por Augusto Canabrava em 30/12/2005
Reeditado em 01/01/2006
Código do texto: T92444
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Augusto Canabrava
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil
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Augusto Canabrava