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Velhinhos jogadores

O Clube dos Velhinhos Jogadores surgiu por brincadeira entre um grupo de amigos que jogavam bocha na Praça Getúlio Vargas, na Vila Eunice, em Cachoeirinha. Surpreendentemente, foi crescendo e ganhando novos sócios, apesar da primeira exigência para ser sócio ser jamais falar sobre a existência do Clube dos Velhinhos Jogadores. Esta exigência era exatamente para evitar que as mulheres dos sócios soubessem do clube, pois a maioria delas era terminantemente contra qualquer tipo de jogo. Por isso, como numa sociedade secreta, os convites para a entrada de um novo sócio eram discutidos em segredo total. O novo integrante só era convidado depois de ter a sua vida examinada e observada pela maioria dos associados. Precisava se enquadrar dentro de regras rígidas, entre elas a de gostar de jogos, ser aposentado, ter mais de 60 anos e, a principal delas, jamais ter apanhado da mulher. Esta exigência era fundamental: o velhinho até podia ser mandado pela mulher (como a maioria era). Mas apanhar em casa, jamais. Vários velhinhos deixaram de receber o convite exatamente por apanharem quietinhos das suas “caras-metades”...
O número de associados dobrou no primeiro ano de existência do clube. Os seis primeiros integrantes logo viraram 12. As atividades eram variadas. Jogavam bocha, dominó, canastra e outros jogos, sempre na sombra das árvores da praça. Uma vez por semana todos sumiam sem deixar rastros. Era o dia de ir para a casa do único associado que morava sozinho e tinha um computador com internet 24 horas. Neste dia, enquanto as mulheres pensavam que eles estavam jogando canastra, o grupo se deliciava navegando pelos sites de sexo da internet. Voltavam para casa com os lenços molhados de tanto babar na frente do monitor. Estas  “orgias” eram guardadas num segredo maior ainda do que a existência do clube.
Outra atividade que realizavam juntos eram as duas visitas semanais ao Bingo Cassino 53. Chegavam cedo da tarde e jogavam até o início da noite, hora estipulada pelas “patroas” para voltarem para casa (-Nem um minuto depois de iniciar o Jornal Nacional...). Eram organizados: todos investiam a mesma quantia. Os cartões eram comprados em conjunto. Os prêmios eram colocados na mesma caixinha e, no final do dia, repartiam os possíveis lucros entre si, sempre deixando uma parte para o Clube dos Velhinhos Jogadores. Ficaram viciados e começaram a ir todas as tardes jogar bingo, deixando os outros jogos em segundo plano. Tiveram que abrir uma poupança para colocar o dinheiro do clube, quantia que cresceu mais ainda quando dois ou três ganharam prêmios altos. Abriram uma conta no Banco do Brasil de Cachoeirinha em nome do único viúvo da turma (o da internet): todos tinham mais confiança nele porque sabiam que o sortudo não tinha mulher para gastar o seu dinheiro ou se meter na sua vida.
As duas desgraças inesperadas aconteceram no mesmo dia: quando soube pelo jornal que o Presidente Lula havia mandado fechar todos os bingos do Brasil, o velhinho da internet morreu fulminado por um ataque cardíaco. Os outros 11 integrantes do Clube dos Velhinhos Jogadores encontraram o companheiro caído, morto, ainda com o jornal nas mãos, onde ele havia marcado com uma caneta vermelha a fatídica notícia sobre o fechamento dos bingos. O computador estava ligado e a tela mostrava vídeos com cenas de sexo do carnaval do Rio de Janeiro. A “overdose” de emoções foi demais para os 75 anos do “tesoureiro” do clube...
Com ele morreu também o Clube dos Velhinhos Jogadores, pois o grupo decidiu, no meio do velório, que não valeria mais a pena continuar com a brincadeira. O clube havia perdido todo o dinheiro que tinha em caixa (quem convenceria os familiares do morto, que já estavam dividindo a herança, de que aquela grana depositada na poupança não era do falecido?). E terminaram também os outros dois grandes motivos para a existência da entidade: as jornadas vitoriosas no Bingo Cassino 53 e os deslumbrantes sites de sexo da internet. Foi um melancólico final para uma grande idéia. Todos voltaram para a monotonia das intermináveis partidas de bocha na Praça Getúlio Vargas...
Milton Souza
Enviado por Milton Souza em 02/01/2006
Código do texto: T93436
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Sobre o autor
Milton Souza
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 71 anos
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Milton Souza