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Óculos

Há coisas na nossa vida não questionadas.

Colocar e retirar um par de óculos do rosto é um gesto tão mecânico que passa desapercebido, mas basta esquecê-los em algum lugar, e tudo muda.

Aí todos nossos sentidos são postos em alerta.

Travamos uma guerra com a memória.

Somos capazes de tudo para recuperar nosso precioso bem.

Há muito mais o que dizer sobre os óculos.

Eu e eles convivemos desde a minha primeira infância.

Mas nem tudo foi um mar de rosas nessa nossa relação tão duradoura.

Usá-los inicialmente foi uma chatice, depois um estorvo, hoje em dia uma necessidade.

Acredito que todo usuário desse, como chamar, utensílio facial, passou por diversos momentos, ora doces ora amargos, dependendo de vários fatores.

Enquanto criança eu os tinha como um trambolho, que mais atrapalhava do que me servia.

Ele estava sempre em lugares estranhos e pouco eram usados para o seu devido fim.

Eram quase sempre destruídos, qual um brinquedo sem graça.

Até que numa determinada fase da minha juventude mudamos nossa relação.

Resolvi assumi-los, confesso que por total necessidade, uma miopia que teimava aumentar.

Deu se então uma verdadeira simbiose.

Eles passaram a ser parte dos meus olhos, como os cílios e as sobrancelhas.

Se antes abominava as lentes grossas, as armações pesadas, nessa fase a que me refiro deixei isso de lado.

Levei tão a sério minha nova postura, que me recordo da exata sensação quando o coloquei no rosto com a determinação de usá-los permanentemente.

Olhando para uma avenida iluminada, uma visão diária, tudo parecia novo e diferente.

Eram novos contornos, novos detalhes, nova visão.

Este fato, além de marcante também fez uma vítima: acabei dando um fora num namorado com uma fria alegação dita sem titubeio “Começo a ver tudo diferente”.

O pobre não entendeu a metáfora, acatando o desfecho cabisbaixo.

Ali eu definia minha futura relação com meus óculos.

Eu não me entendia sem eles desde então e, passaria a  cobiçá-los nas vitrines com os olhos de colecionadora voraz.

Apelidada quatro olhos, mesmo só tendo dois, não fazia caso ao apelido e comprava pares e pares deles, das mais diferentes procedências e cores.

Eles me davam segurança e autoconfiança.

Numa fase sem Internet e comunidades virtuais, o uso de óculos era o gancho para novos relacionamentos.

Claro, tornei-me cliente e amiga fiel do proprietário de uma ótica.

Esse, mais do que um esteta também me oferecia sua atenção e carinho.

Nossos papos eram infindáveis.

Sendo um competente profissional da área, por força do ofício, ele me olhava nos olhos,  analisava, sentia minhas necessidades e carências e  também estudava minhas feições.

Suas indicações eram sempre perfeitas.

A cada compra me via modificada, enfeitada, e enxergando melhor.

Quem resiste à tamanha aproximação e entendimento sem se deixar cativar?

Voltando a eles, os óculos, devo lembrar que tudo que é demais cansa.

Nós não fugimos a regra e quase nos divorciamos.

Na verdade só demos um tempo.

Desejando variar, usei lentes, mas não me adaptei, pois não tinham o mesmo fetiche dos óculos.

Radicalizando mais, recorri à cirurgia, mas constatei que o que buscava atrás das lentes não era apenas enxergar melhor.

Na verdade os óculos funcionam como um escudo, uma proteção.

Hoje madura mesmo sem a miopia, quase completamente corrigida pela cirurgia, minha vista se cansou, mas eu me nego a não enxergar.

Eu os tenho novamente e prazerosamente comigo, sem contar o chamego especial com os óculos escuros dos quais não me separei nem nos nossos momentos de crise.
Só Suely
Enviado por Só Suely em 04/01/2006
Código do texto: T94172
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Sobre a autora
Só Suely
Itanhaém - São Paulo - Brasil, 68 anos
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